sábado, 27 de dezembro de 2014

Vivemos como Alice?

Filme "Alice no País das Maravilhas" de 1951 (Walt Disney)
A virada do ano sempre nos suscita à reflexão e avaliação sobre nossas realizações no ano que se passou. Questionamo-nos se os objetivos planejados foram alcançados ou fracassados, com o fim de projetar novos planos para o futuro. O réveillon é um momento para renovar as energias, sendo um novo recomeço, com entusiasmo e esperança de um ano novo mais próspero que o velho.
Planejamos a aquisição de novos bens: comprar um apartamento, um lap top, celular, tablet etc..., ou fazer uma viagem. Doutras vezes, planejamos uma conquista intelectual: terminar o ensino médio, passar no vestibular ou no Enem, concluir uma faculdade ou pós-graduação. Pensamos em nossa ascensão profissional e financeira: passar num concurso, abrir ou ampliar seu empreendimento, conseguir um emprego, uma promoção, ou até mesmo trabalhar numa empresa que nos valorize mais. Mas há planos para o lado afetivo: se casar, ter filhos, constituir uma família.    
Todos esses objetivos são legítimos, desde que façamos com honestidade, e devemos nos empenhar para alcançá-los.
Esta reflexão me remete a personagem de “Alice no País das Maravilhas”, obra literária do inglês Lewis Carroll. Fazemos abaixo um breve resumo de seu livro:
Ele conta a estória de Alice, uma garota que estava entediada quando de repente viu um coelho branco correndo, afirmando que estava atrasado. Ele chegou a tirar um relógio de seu colete e apressou o passo até a sua toca. Aquela imagem despertou a sua curiosidade que a faz correr atrás do coelho e sem pensar mergulha em sua toca. A partir daí, Alice entra num mundo mágico onde tudo é possível: ela crescia e diminuía de tamanho, conversava com animais e outros seres bem pitorescos dentre os quais citamos: a lagarta azul, o chapeleiro maluco, o gato de cheshire (ou sorridente), a rainha de copas e muito mais. Enfim, ela viveria experiências que jamais teria no mundo real.
Alguns podem afirmar que esta fábula é apenas para entreter crianças, mas podemos tirar várias lições para nós adultos como segue abaixo:
Alice está perdida. Ela se encontra num país desconhecido. Mas num dado momento ela cai em si e tem um plano. Esse plano tem duas fases: 1ª: ela precisa crescer para ter autoridade e respeito sobre os animais e seres que lá vivem. 2ª encontrar o jardim encantado.
Ela tem a oportunidade de crescer e consciência de que alcançou a metade de seu plano, mas algo lhe desvirtua e resolve ficar pequena novamente. Ela simplesmente esquece seu plano e vive como diz a música: “Deixa a vida me levar...” .1
Noutro momento ela está no meio de uma floresta densa, quando encontra um gato e lhe faz a seguinte pergunta:
“Você poderia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?”
“Depende muito de onde você quer chegar”, disse o Gato.
“Não me importa muito onde...” foi dizendo Alice.
“Nesse caso não faz diferença por qual caminho você vá”, disse o Gato.2
Pergunto: Vivemos como Alice? Será que somos suficientemente persistentes para conseguir alcançar nossos objetivos? Será que a cada pedra no caminho que nos faz tropeçar e cair nos desvirtua dos planos traçados por nós mesmos? Será que queremos chegar a algum lugar?
Vamos refletir com a visão de Jesus de Nazaré. Ele nos ensina: “... não se preocupem, dizendo: ‘Que vamos comer?’ ou ‘Que vamos beber?’ ou ‘Que vamos vestir?’...Busquem, em primeiro lugar o Reino de Deus e toda sua justiça, e todas essas coisas lhe serão acrescentadas”3
Observem que Jesus não recomenda simplesmente que esqueçamos as coisas materiais, mas que a coloquemos no seu devido lugar. Devemos dar preferência às questões do espírito, ou seja, a conquista das virtudes: a humildade, o altruísmo, a indulgência, benevolência, perdão e o amor para com o próximo.
A aquisição das virtudes passa primeiro pelo conhecimento de si mesmo, um trabalho silencioso, mas que é a chave para o progresso individual. Assim que identificarmos quais são os nossos defeitos e virtudes, seremos capazes de traçar um plano eficaz para combater nossas más inclinações e ampliar aquilo que há de bom em nós. 
    Este deve ser o nosso plano principal, pois somos viajantes em terra desconhecida, como Alice, e retornaremos um dia a nossa terra Natal, que é o Reino de Deus, segundo Jesus, ou mundo Espiritual, segundo o Espiritismo, e só levaremos para lá o que estiver em nosso coração.
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
Deixa a vida me levar (3ª faixa do álbum “Deixa a vida me levar”)
        3.    Mateus cap. 6 vv 31 e 33. 

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Os Ruídos e a Essência do Natal

Imagem de Papai Noel elaborada por Thomas Nast
É Natal! É Natal!... É tempo de 13º! É tempo de promoções nas lojas! É tempo de comprar! É tempo de troca de presentes! É tempo de mesa farta! É tempo de extravasar na comida e na bebida! É tempo de colocar o pisca-pisca nas janelas! É tempo de montar a árvore de Natal! É tempo de Papai Noel! Diante da avalanche de informações que envolvem o Natal, como lembrar daquilo que é essencial neste dia?
O Natal que a humanidade hoje vive pode ser comparado a uma emissora de rádio que concorre com outras piratas que estão na mesma frequência. O ouvinte não consegue discernir o que vem dela do que é uma invasão. Tudo que se ouve parece ser ruído. Precisamos de um filtro para reter as interferências e receber, de forma limpa e clara, apenas a transmissão da legítima emissora. Para isso, vamos buscar, historicamente, de onde vieram alguns símbolos e ritos que fazem parte do Natal.
Troca de presentes e banquetes. Apontamos duas referências: uma está na Bíblia; no livro atribuído a Mateus narra o encontro dos magos com o menino Jesus para lhe adorar, oferecendo ouro, incenso e mirra. Outra está no festival romano Saturnalia, em homenagem ao deus Saturno, que ocorria em meados de dezembro. A Saturnalia tinha início com grande banquete; os participantes tinham o hábito de visitar seus amigos e presenteá-los. Era a festa mais popular entre os romanos, que durava de 3 a 7 dias, onde as regras sociais podiam ser quebradas. Esta festa continuou até o séc IV D.C., quando seus rituais foram absorvidos pelo Natal.1 e 2
Papai Noel. Apesar de ser considerada uma lenda, sua origem é real, se trata de São Nicolau, bispo na Turquia que viveu no séc. IV e costumava ajudar pessoas pobres, pondo moedas de ouro nas chaminés de suas casas no Natal. Porém, a imagem que se tem hoje de Noel foi elaborada no séc. XIX pelo cartunista Thomas Nast, sendo posteriormente utilizada em campanhas publicitárias de várias empresas, devido à popularidade do bom velhinho.3 e 4
Podemos observar, através desta brevíssima pesquisa histórica feita acima, que muito dos costumes do Natal não tem relação alguma com seu aniversariante. Infelizmente, a grande maioria é de origem humana, que satisfazem a uma determinada necessidade, interesses materiais de pessoas e grupos sociais. Diante deste turbilhão de informações, eu pergunto:
- Qual é a essência do Natal?
Se o aniversariante é Jesus de Nazaré, quais são os presentes que devemos oferecê-lo? Ouro, incenso e mirra como fizeram os magos?
Para responder a esta pergunta, recorro ao capítulo XV de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”: Fora da Caridade Não Há Salvação. A passagem é novamente de Mateus que segue abaixo na íntegra:
Ora, quando o filho do homem vier em sua majestade, acompanhado de todos os anjos, sentar-se-á no trono de sua glória; – reunidas diante dele todas as nações, separará uns dos outros, como o pastor separa dos bodes as ovelhas – e colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.
Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo; – porquanto, tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; careci de teto e me hospedastes; – estive nu e me vestistes; achei-me doente e me visitastes; estive preso e me fostes ver.
Então, responder-lhe-ão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? – Quando foi que te vimos sem teto e te hospedamos; ou despido e te vestimos? – E quando foi que te soubemos doente ou preso e fomos visitar-te?
– O Rei lhes responderá: Em verdade vos digo, todas as vezes que isso fizestes a um destes mais pequeninos dos meus irmãos, foi a mim mesmo que o fizestes.
Dirá em seguida aos que estiverem à sua esquerda: Afastai-vos de mim, malditos; ide para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos; – porquanto, tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber; precisei de teto e não me agasalhastes; estive sem roupa e não me vestistes; estive doente e no cárcere e não me visitastes.
Também eles replicarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome e não te demos de comer, com sede e não te demos de beber, sem teto ou sem roupa, doente ou preso e não te assistimos?
– Ele então lhes responderá: Em verdade vos digo: todas as vezes que faltastes com a assistência a um destes mais pequenos, deixastes de tê-la para comigo mesmo.
E esses irão para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna.5
O auxílio ao próximo, seja ele quem for, é a resposta da essência do Natal. Este auxílio independe de tempo e lugar. É por isso que afirmamos que o “Natal deve ser vivido todos os dias!”.
Caro leitor, não é minha intenção convencê-lo de deixar de praticar os costumes Natalinos. Podemos praticá-los, porém, dando um sentido mais espiritualizado a esses costumes. Assim, o Natal é tempo de presentes, mas também de reconciliação, é tempo de mesa farta, mas também de gentileza, é tempo de Papai Noel, mas também de solidariedade, é tempo de enfeitar nossa casa, mas também de caridade. Pensemos nisso! Um Feliz Natal!
Por João Viegas

Referências bibliográficas:
1. Saturnais – Tempo de presentes - Anais da XXV Semana de Estudos Clássicos, Intertextualidade e Pensamento Clássico, 13 a 16 setembro de 2005. Departamento de Letras Clássicas – Faculdade de Letras / UFRJ - ISBN 85-87043-54-4

5.    KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, O Que precisa o Espírito para se salvar. Parábola do bom samaritano, cap. XV Fora da Caridade não Há Salvação. 

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Minha Mediunidade Sumiu! E Agora?

Cláudia Raia é a paranormal Samantha (Novela Alto Astral Globo)  
A novela das 7 hs “Alto Astral” da rede Globo é uma fonte riquíssima de debates com temáticas espiritualistas, e porque não dizer espíritas.
A atriz Cláudia Raia é a divertidíssima, mas interesseira Samantha, uma vidente trambiqueira paranormal que perdeu sua mediunidade nos últimos tempos. Para retomar a sua fama e prestígio perante a sociedade, ela armou um plano com seus comparsas: eles roubaram um laudo pericial da prefeitura que concluía que a ponte da cidade estava para desabar. Assim, de maneira bem extravagante, ela parou o trânsito da ponte, provocando na sua frente uma aglomeração de pessoas que desejavam fazer a travessia e que cobravam por sua liberação. Por fim, diante de todos, Samantha profetizou: “Escutem, escutem: essa ponte vai cair”.1 e 2 e 3
Ela criou tanto alvoroço que chamou atenção da mídia que esteve no local para cobrir o fato protagonizado pela polêmica vidente.
Durante essa confusão, os seus comparsas aceleravam o processo de desabamento da ponte, cerrando parte das suas estruturas metálicas. Diante do público revoltado e das câmeras de TV, a profecia se concretizou: a ponte foi ao chão.
Samantha saiu carregada e ovacionada pelo povo, dando entrevistas e distribuindo autógrafos. Seu plano foi um sucesso.
Desesperada por ter que recorrer a expedientes como esse para manter o prestígio e popularidade, ela recorreu a um pai de santo para recuperar a sua mediunidade que lhe aconselhou:
Samantha procura pai de santo para recuperar sua mediunidade
“Se você quer mesmo a sua mediunidade de volta, precisa ter paciência. Peça aos nossos mestres que eles vão te atender. Peça com o coração.”
Por fim, o pai de santo entrou num transe profundo e lhe disse que para ter seus “poderes” de volta, ela terá que mudar:
“Deixando a ambição e o egoísmo de lado. Mostrando bondade, compaixão e generosidade. Foi a sua ganância que afugentou esse espírito de luz que te acompanhava.”4 e 5
Os Espíritos Superiores, à época de Kardec, esclarecem que uma das causas da suspensão da mediunidade é o afastamento dos espíritos comunicantes. Afirmam também que, muita das vezes, essa suspensão é apenas temporária, retornando a faculdade assim que for cumprido o propósito da suspensão.
O afastamento dos espíritos benévolos se dá, principalmente, pelo mau uso que o médium faz de sua faculdade, quando desvirtua seu dom do verdadeiro propósito outorgado por Deus, que é “... sua melhoria espiritual, e para dar conhecer aos homens a verdade...”6. É uma lição que o médium passa para compreender que a mediunidade independe de sua vontade.
Algumas vezes, a suspensão se dá para que o médium possa refazer suas energias, já que a mediunidade requer consumo de fluido magnético animalizado, ou para refletir sobre as comunicações recebidas, interiorizá-las e praticá-las.  
Sabemos perfeitamente que o afastamento dos espíritos do bem dá lugar aos espíritos de natureza menos digna. Porém, os espíritos novamente esclarecem que se o espírito que se afastou for benévolo, ele pode impedir que espíritos inferiores se manifestem no mesmo médium. Isto é lógico, pois a única hierarquia que existe no mundo espiritual é a moral. Os espíritos superiores tem autoridade sobre os inferiores, por que a força do bem é irresistível. Esta autoridade é usada com prudência e sabedoria, para respeitar, dentro do possível, o uso do livre-arbítrio.
Diante dos esclarecimentos acima, podemos concluir que o pai de santo da novela “Alto Astral” orientou Samantha corretamente. Seu problema está no mau uso que ela fez de sua mediunidade, que destinou apenas para satisfazer o seu orgulho, vaidade e atender seus interesses materiais.
Podemos afirmar que o Espírito de luz que acompanhava Samantha, segundo o pai de santo, deu uma chance a ela, suspendendo a sua faculdade para que ela pudesse refletir sobre suas ações. Se sua mediunidade não fosse suspensa, ela certamente seria ludibriada por Espíritos mistificadores e zombeteiros que estão sempre à procura de médiuns invigilantes, para enganá-los e enganar aqueles que procuram seus serviços.
O médium vaidoso e interesseiro se vê na obrigação de oferecer seus conselhos, responder aos questionamentos e fazer premonições a todos àqueles que o procuram. Quando esse tipo de médium não dispõe de sua faculdade, utiliza-se da fraude. Portanto, é por causa das paixões humanas que até os dias de hoje encontramos a mediunidade envolvida com charlatanismo e o embuste.
Infelizmente, esse é um dos argumentos utilizados por aqueles que se opõem ao Espiritismo, pois analisam a mediunidade parcialmente e de acordo com as suas crenças religiosas ou ceticismo sistemático. Portanto, esse tema deve ser encarado com franqueza, abrindo o debate para esclarecimento dos espíritas e simpatizantes do Espiritismo, com fins de fortalecimento das suas convicções.
Por João Viegas

Referências bibliográficas:
Obs: assista as 7ª, 12ª e 13ª cenas do 1º capítulo (Segunda 03 de novembro) da novela Alto Astral
Obs: assista a 5ª cena do capítulo de Quinta 13 de novembro da novela Alto Astral.
6.    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo XVII – Da Perda e Suspensão da Mediunidade, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Sou Louco ou Sou Médium?

Caíque é o personagem vivido pelo ator Sérgio Guizé
A Rede Globo de Televisão lançou neste mês de novembro a sua novela das 7hs “Alto Astral”, obra de Daniel Ortiz, com direção de Núcleo de Jorge Fernando. A novela é protagonizada pelos atores Natália Dill, Thiago Lacerda e Sérgio Guizé. Trata-se de uma comédia romântica com fundo espiritualista.1
Caíque, personagem vivido por Guizé, é um rapaz que desde a sua infância é atormentado por visões. Marcos, vivido por Lacerda, é seu irmão mais velho e sempre teve vergonha dele por se passar por louco diante das pessoas. Após sofrer um acidente de avião no qual Caíque teve sua perna quebrada durante a queda, ele só conseguiu sair das ferragens e escapar da explosão depois que uma dessas visões apareceu e o curou. Mais uma vez a sua mãe e seu irmão não acreditaram nele.
Caíque cresceu e se tornou médico. No entanto, suas visões reapareceram depois de adulto. A mesma visão que lhe salvou do desastre volta a lhe atormentar, afirmando que também é médico, mas já morreu e que precisa fazer um trabalho junto com ele.
Desesperado e sem compreender o que se passa, Caíque busca ajuda de seu amigo psiquiatra Fernando que, felizmente e para grande surpresa do público, acredita que ele seja médium e que realmente esteja se comunicando com as almas dos mortos.2 e 3
Esta novela retrata a difícil situação de muitas pessoas que vivem a experiência de ter visões e/ou de ouvir vozes, e por falta de conhecimento das leis espirituais são tachadas pela sua família e sociedade por louco e pela Medicina por alguma patologia psiquiátrica.
No entanto, a mediunidade desajustada ou mal empregada pode causar vários problemas ao médium, dentre eles citamos a obsessão estudada por Kardec, que é o maior escolho da mediunidade. Se ela não for tratada, tanto do ponto de vista do obsessor, mais principalmente do ponto de vista do obsidiado, com a sua mudança de conduta moral e ética diante do próximo, esse processo de influência persistente pode se agravar, e em casos extremos se tornar uma subjugação corporal ou mesmo uma possessão, no qual a pessoa perde o controle sobre si mesma. Vejamos os esclarecimentos dos Espíritos a esse respeito:
A subjugação corporal, levada a certo grau, poderá ter como consequência a loucura?
“Pode, a uma espécie de loucura cuja causa o mundo desconhece, mas que não tem relação alguma com a loucura ordinária. Entre os que são tidos por loucos, muitos há que apenas são subjugados; precisariam de um tratamento moral, enquanto que com os tratamentos corporais os tornamos verdadeiros loucos. Quando os médicos conhecerem bem o Espiritismo, saberão fazer essa distinção e curarão mais doentes do que com as duchas.”4
O Espiritismo não nega a existência das patologias psiquiátricas, mas é seu desejo separar o que é realmente doença daquilo que é problema espiritual. Assim, a Ciência do Espírito vem exatamente cobrir a lacuna que a Ciência da Matéria não consegue fechar, pois muitos fenômenos da natureza são ignorados por ela, por não admitir a existência do Espírito.
Kardec resume esta questão de forma brilhante como segue abaixo:
“Assim como a Ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da Natureza, a reagir incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, segue-se que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação.”5
Apesar de muitos equívocos e desenganos, a Ciência já fez alguns progressos neste sentido. O Código Internacional de Doenças, conhecido como CID-10, é um documento publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que visa padronizar e codificar todas as patologias conhecidas pela Ciência. O CID-10 é amplamente utilizado por profissionais de saúde com o intuito de ajudá-los na pesquisa de diagnósticos clínicos de seus pacientes.
    O CID, no seu item F.44.3 - Estados de Transe e Possessão - configura como diagnóstico médico e qualifica o transe patológico (mediunidade/doença) quando o indivíduo não tem controle sobre o fenômeno, ocorrendo de forma involuntária e não desejada. Mas não é considerada doença o estado de transe (mediunidade/saúde) sob domínio da pessoa em seu contexto cultural ou religioso.6
      Portanto, os médiuns que empregam suas faculdades sensitivas em sessões espíritas ou em instituições religiosas que se utilizam de tais práticas, não possuem patologia de qualquer natureza conforme o CID-10.
Os médiuns, como Caíque da novela “Alto Astral”, que insistem em negar que o são e vivem atormentados pela sua própria faculdade, devem refletir sobre a sua postura diante do dom de ser intermediário entre os mundos espiritual e material. Eles devem perceber que tem diante das mãos a belíssima oportunidade da prática no bem pelo bom uso da sua faculdade e a possibilidade ímpar de ser mais um a contribuir na demonstração da imortalidade da alma perante a nossa Sociedade tão materialista. Por fim, as filosofia e ciência espíritas bem compreendidas por médiuns e seus familiares é altamente consoladora e esclarecedora, algo que nem a ciência e nem as religiões podem oferecer a humanidade.
 Por João Viegas
 Referências bibliográficas:
3. http://gshow.globo.com/novelas/alto-astral/capitulo/2014/11/7/laura-termina-noivado-com-marcos.html
            Obs: assista as 1ª, 6ª e 7ª cenas do capítulo de Sexta 7 de novembro da novela Alto Astral.
     4. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo XXIII – Da Obsessão, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
5. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I – Caráter da da revelação espírita.
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terça-feira, 28 de outubro de 2014

É Dando que se Recebe?

A Sociedade brasileira ficou aterrorizada com as declarações bombásticas à Justiça Federal do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, acerca de um esquema de corrupção na maior empresa do País, com pagamento de propina a partidos políticos durante os anos de 2006 a 2012.
Em delação premiada, Costa e Youssef esclareceram à Justiça como funcionava o esquema: os diretores da Petrobras e o doleiro negociavam com as empreiteiras o percentual da propina. Em contrapartida, as empresas conseguiam os contratos. O dinheiro da propina saia dos cofres das empresas e era distribuído aos diretores da Petrobras, a políticos e também ao doleiro.
Em dado momento Youssef esclarece que sem o pagamento da propina, o contrato não era fechado.
Costa resume a lógica do sistema:
“Se houve erro, e houve erro... foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos principalmente que, usando a oração de São Francisco, que é 'dando que se recebe'. Eles usam muito isso”. 1 (Grifos nossos)

A Sociedade capitalista na qual se vive hoje é baseada nas relações de interesses recíprocos: o trabalhador procura por um emprego para oferecer a sua força de trabalho, em contrapartida espera receber um salário digno de seu empregador; os pais de família procuram uma escola que proporcione aos seus filhos uma educação de qualidade, em troca a escola deve cobrar um preço justo pelos serviços prestados; uma empresa fornece matéria-prima à outra que vai manufaturá-lo para produzir um produto para venda, em contrapartida, a empresa fornecedora espera receber um preço justo pela matéria-prima fornecida.
Podemos enumerar muitos casos de relações de interesses recíprocos nos quais ambas as partes saem ganhando sem que haja transgressão das leis humanas, respeitando também as leis de livre mercado estabelecidas pela economia. Portanto, todas essas relações são legítimas, podendo se aplicar o mesmo verso da Oração de São Francisco: “é dando que se recebe”.
No entanto, vemos claramente no caso de investigação de corrupção na Petrobras uma distorção absurda do referido verso, numa tentativa desesperada de justificar através dos dogmas da religião, o desvio de conduta e infração das leis humanas para satisfação dos interesses pessoais dos envolvidos.
Uma análise mais abrangente da Oração de São Francisco, podemos concluir facilmente que seu autor não se refere às relações capitalistas, mas sim, às relações de beneficência e benevolência, ou seja, a nossa capacidade de renunciar aos nossos interesses para servir ao próximo: seja consolando-o das suas dores, dando-lhe esperanças de uma vida melhor, seja fortalecendo a sua confiança em Deus e nele mesmo, seja perdoando mesmo que não sejamos perdoados, seja praticando o bem àqueles que nos querem mal.
É neste sentido que devemos lembrar os sábios ensinos do Homem de Nazaré, quando diz:
Tende cuidado em não praticar as boas obras diante dos homens, para serem vistas, pois, do contrário, não recebereis recompensa de vosso Pai que está nos céus. – Assim, quando derdes esmola, não trombeteeis, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. – Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a vossa mão direita; – a fim de que a esmola fique em segredo, e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo, vos recompensará. 2
Disse também àquele que o convidara: Quando derdes um jantar ou uma ceia, não convideis nem os vossos amigos, nem os vossos irmãos, nem os vossos parentes, nem os vossos vizinhos que forem ricos, para que em seguida não vos convidem a seu turno e assim retribuam o que de vós receberam. – Quando derdes um festim, convidai para ele os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos. – E sereis ditosos por não terem eles meios de vo-lo retribuir, pois isso será retribuído na ressurreição dos justos. 3
Assim, não se deve esperar recompensas materiais ou morais, nem reconhecimento, nem gratidão daqueles que foram beneficiados pelas nossas boas ações. Por outro lado, aqueles que vestem a capa da bondade e da caridade para serem glorificados pelos homens, e assim ganharem respeito e consideração pelas suas “boas obras”, Jesus já sentenciou: “eles já receberam sua recompensa”.
Os seus ensinos são tão claros que nem são necessários os esclarecimentos dos Espíritos Superiores, pois não há ambiguidades nas suas palavras quando se trata de fazer o bem, que sintetizamos abaixo: o bem deve ser feito pelo simples prazer de fazer o bem, nada mais do que isso.
Portanto, não transportemos a lógica do sistema capitalista, por mais justa e correta que ela seja perante as leis humanas, para as nossas relações de beneficência e benevolência. Quem pensa e age assim desperdiça inúmeras oportunidades de renunciar a seu orgulho, egoísmo e vaidade, pois este é um dos propósitos de fazer o bem.
Os espíritas que têm a convicção na vida futura e na existência do Pai Criador do Universo soberanamente justo e bom devem saber que todas as suas ações serão avaliadas pela sua intenção do que pelos seus efeitos. Tudo isso será contabilizado quando chegar o momento de regressar ao plano espiritual.
  
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Fazer o bem sem ostentação, cap. XIII Que a Vossa Mão Esquerda não Saiba o que Dá a Vossa Mão Direita.
3. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Convidar os Pobres e os Estropiados, cap. XIII Que a Vossa Mão Esquerda não Saiba o que Dá a Vossa Mão Direita.
4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Caridade e Amor ao Próximo, cap. XI, Parte Terceira – Da Lei de Justiça
5. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, As virtudes e os vícios, cap. XII, Parte Terceira – Da Perfeição Moral
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ponto de Vista

Escultura de Chico Niedzielski no Parque das Águas–SP
O dia de finados é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de novembro. É o dia no qual os fiéis lembram e oram1 pelos entes queridos que faleceram, visitando seus túmulos nos cemitérios. Sabemos que todos nós passamos ou vamos passar algum dia por essa perda, pois a vida quanto à morte são fenômenos naturais que sempre estão perto de nós. Portanto, é nosso dever nos esforçar em compreendê-los, sem nos ater às práticas exteriores, mas fundamentalmente refletir sobre qual deve ser a nossa postura mental diante da vida e da morte. 
Os espíritas que possuem o bálsamo de informações que o Espiritismo lhes proporcionam, precisam encarar a vida terrena de um ponto de vista mais amplo, para que as dores e mazelas físicas e morais sejam digeridas de maneira diversa.
Os Espíritos Superiores esclarecem que a vida encarnada é uma prisão. Isto significa que nós, espíritos imortais, seres inteligentes do Universo, criados por Deus simples e ignorantes, cuja meta é alcançar a perfeição pelos nossos próprios esforços, estamos presos temporariamente ao nosso corpo físico para galgar um degrau na escala evolutiva. A vida na Terra deve ser vista apenas como uma gota d’água diante do oceano do mar que é a imortalidade da alma.
Inspiro-me no comentário de Kardec à pergunta 936 de “O Livro dos Espíritos”2para propor a seguinte situação: vamos supor que estejamos presos. É fato que todo presidiário quer sua liberdade. Mas, primeiro, é necessário pagar pela sua pena. Na carceragem ganhamos amigos e até adversários. Apesar das condições difíceis do cárcere, ganhamos uma amizade sincera e sem interesses. O que diríamos a um companheiro que está prestes a se libertar por ter cumprido a sua pena?
- “Por favor, não vá, não me deixe só, fique comigo!!
A grande maioria vai concordar que esta resposta é de alguém que está pensando no seu bem, mas não no bem do seu próximo.
No entanto, se nos depararmos com momentos de perigo e dores em nossa família causados por um acidente ou enfermidade, devemos lutar com todas as nossas forças, buscando o auxílio da nossa inteligência, da ciência e também da Espiritualidade Superior para o restabelecimento da saúde. Este é um dever que não podemos nos eximir, pois está em conformidade com a Lei Divina de Conservação3. São provas que devemos enfrentá-las com confiança e resignação, pois só a Deus compete decidir o momento derradeiro do corpo físico.
Sofrer pela perda de um ente querido é legítimo, seja qual for a sua convicção filosófica ou crença religiosa. Devemos respeitar o momento de tristeza do outro e até chorar junto com eles. Em momentos de aflição como este, elevemos nosso pensamento ao Pai, pedindo o auxílio dos amigos espirituais para nós e para quem partiu, rogando equilíbrio e sabedoria. Devemos entender que cada um de nós tem seu tempo para digerir as suas dores. Esse tempo dependerá fundamentalmente do ponto de vista no qual se encara a vida.
Devemos ter o cuidado em não transformar essa dor num desespero sem fim, numa melancolia e depressão sem volta. A vida segue tanto para quem fica quanto para quem partiu para a verdadeira Pátria. Se ainda estamos por aqui, é porque a nossa tarefa ainda não terminou. O nosso pensamento desajustado, por não aceitar a perda de um ente querido é maléfico para nós, pois paralisamos nossas vidas, e também para os que se foram, pois eles sofrem por estarmos sofrendo.
A certeza da vida futura, que a Doutrina nos ensina e nos atesta através das inúmeras comunicações daqueles que se foram através da mediunidade, além da convicção e confiança em nosso Pai de infinita misericórdia, justeza e bondade deve ser o nosso consolo. Para a vida valer a pena, ela tem que ser feita de superação. Devemos nos empenhar em transformar a nossa lembrança em algo bom, belo, que traga alegria, leveza e bem-estar.        
    Por João Viegas
Referências bibliográficas:
2.    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Perda de Entes Queridos, cap. I Das penas e gozos terrestres, Parte Quarta – Das esperanças e consolações
3.    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, cap. V, Parte Terceira – Da Lei de Conservação
4.    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, cap. VI, Parte Terceira – Da Lei de Destruição
5.    KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Perda de pessoas amadas. Mortes prematuras, cap. V Bem-Aventurados os Aflitos
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Allan Kardec: Fundador do Espiritismo

Homenagem ao centanário de Kardec
Os espíritas classificam e definem Allan Kardec como o Codificador1 do Espiritismo. No entanto, uma análise mais justa de como desenrolou a revelação espírita e do trabalho e papel de Kardec, concluiremos que esse atributo dado a ele é incompatível com a sua missão e inadequado a sua trajetória de vida. Veremos, portanto, que o atributo mais condizente é de Fundador do Espiritismo2. Para nos convencer disto é necessário compreender a amplitude da sua missão.
Os dicionaristas definem a palavra “codificar”: reunir em código, compilar, coligir, sendo a palavra “codificador” seu substantivo3. O argumento muito utilizado pelos próprios espíritas é o seguinte: como a filosofia espírita é de autoria dos Espíritos, e não dos homens, coube a Allan Kardec o trabalho de organizar, reunir e compilar as comunicações que os Espíritos deram através da mediunidade em livros para publicação e conhecimento da sociedade.
O argumento de que a filosofia espírita pertence aos Espíritos é verdadeiro, e o próprio Kardec deixa bem clara esta questão em suas obras4. No entanto, ele ignora o fato que a filosofia espírita é resultado e consequência da ciência espírita. Se assim não fosse, teríamos apenas um corpo doutrinário cheio de equívocos, ideias controversas e antagônicas, pois seria apenas um conglomerado de opiniões pessoais dos Espíritos. Por fim, a revelação espírita careceria de seu caráter verdadeiro, e com o passar do tempo seria esquecido pelos homens.
O relato de Kardec abaixo descreve a sua iniciação no Espiritismo, ficando evidente a sua postura investigativa, cautelosa e séria perante as manifestações espíritas:
“Apliquei a essa nova ciência,..., o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão... Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era,..., toda uma revolução nas ideias e nas crenças; fazia-se mister, portanto, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir.”5
Kardec teve que se precaver de muitos problemas inerentes às manifestações espíritas, pois sabia que para conseguir alcançar as comunicações do mais alto conhecimento e sabedoria deveria se desvencilhar do charlatanismo, do embuste e da comercialização da mediunidade, práticas muito comuns a sua época e até os dias de hoje.
Mas isso não era suficiente. Mesmo as sessões espíritas cujos seus participantes: médiuns, evocadores e ouvintes sejam mulheres e homens de bem e estejam com as melhores das boas intenções, podem ser vítimas de espíritos mistificadores, que se passam por vultos dignos de respeito, apenas para ganhar a nossa confiança e plantar ideias equivocadas, controversas ou maliciosas com o intuito de criar a dúvida, a discórdia e a divisão.
Para se prevenir de todas as dificuldades inerentes à mediunidade, ele lançou as bases da ciência espírita, que se chama “Controle Universal do Ensino dos Espíritos”6. Uma metodologia na qual vários Espíritos, em locais diferentes, com médiuns distintos, nos ensinam espontaneamente sobre as questões da mais alta gravidade para filosofia: quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Ele pôde comparar os ensinos que possuíam coerência, lógica e concordância daqueles que não passam de um equívoco, de uma opinião pessoal ou de uma ignorância.
Toda Ciência tem seus fundadores ou pais, que são mulheres e homens de gênio que conseguem ver aquilo que está além de seu tempo, transcendendo as limitadas percepções humanas, promovendo uma ruptura de conceitos equivocados e ultrapassados que eram tidos como verdades absolutas, derrubando-os e trazendo o novo, impulsionando, por fim, o progresso da humanidade.
O Espiritismo sendo uma Ciência, necessariamente tem seu fundador, e este é Allan Kardec. Sua missão consistia em fundá-lo, mas também em difundi-lo. É neste ponto que a sua missão tornou-se mais áspera. Veja abaixo a resposta que o Espírito Verdade deu a Kardec sobre as dificuldades que se depararia para o cumprimento de sua missão. Esta comunicação ocorreu antes da publicação de “O Livro dos Espíritos”, 1º livro de Kardec.                   
“P. — Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insuficiência das minhas capacidades?”
“R. — Não; mas, a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente em casa. Tens que expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo... Para tais missões, não basta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.
Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.”7
A profecia do Espírito Verdade concretizou-se. Dez anos após a referida comunicação, Kardec confirma absolutamente tudo que foi escrito. Porém, não se arrependeu de sua decisão de aceitar sem restrição a sua missão, pois teve a certeza que logrou êxito.
A ideia de um Codificador do Espiritismo nos restringe a ver Kardec apenas como um homem intelectual sentado tranquilamente à sua mesa de trabalho a analisar documentos. Em contrapartida, a ideia de um Fundador do Espiritismo, amplia a nossa visão acerca dele, pois enxergamos um homem à frente de seu tempo, experimentando, investigando e examinando as manifestações espíritas, e das suas deduções produzindo vasto material sobre a sua experiência nesta ciência. Por fim, enxergamos Kardec em busca daquilo que todo homem de ciência e filosofia deseja: a verdade. Qual dessas ideias é mais compatível com o que Kardec foi de fato?        
Os espíritas que compreendem a magnitude da missão de Kardec, estejam convencidos que a melhor maneira de presenteá-lo em seu 210º aniversário de nascimento que se dará no próximo dia 03 de outubro é estudar suas obras. Que o resultado das meditações sobre todos os seus ensinos, orientações e recomendações possam transformar-se em ações para que o Espiritismo esteja protegido de possíveis deturpações e que cumpra a missão de tornar a sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1. Allan Kardec Codificador do Espiritismo, Capa, Ano 131, nº 2.215, Outubro de 2013, Revista Reformador, Federação Espírita Brasileira.
2. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Biografia de Allan Kardec. 
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999, Biografia de Allan Kardec. 
3. Site internet:
Luft, Celso Pedro. Mini Dicionário Luft.São Paulo: Editora Scipione ltda e Editora Ática.
4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Prolegômenos. 
5. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.
6. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 99ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Autoridade da Doutrina Espírita, item II, Introdução.
7. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Minha missão, 12 de junho de 1856, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.

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