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| Uma das pinturas mais antigas de Jesus |
Os espíritas do séc. XXI precisam compreender quais são as consequências para o Espiritismo das novas descobertas que a ciência fez acerca de Jesus. Esse estudo é batizado pelos próprios cientistas de Jesus Histórico, uma busca pelo homem de carne e osso por trás do Jesus da fé, cunhado há dois milênios pela religião cristã. Com efeito, temos de um lado a Igreja com sua visão ortodoxa e fundamentalista das Escrituras, e do outro a ciência com sua perspectiva crítica e cética dos textos sagrados. Diante de um cenário de inúmeras controvérsias, são suscitados aos espíritas os seguintes questionamentos: eles devem condenar essas descobertas, pois creem que as Escrituras sagradas são de origem divina, e, portanto, não cabe ponderação? Devem se tornar indiferentes a elas, pois quaisquer descobertas da ciência não interferirão na filosofia espírita? Ou devem abraçá-las e aceitá-las, agregando ao seu conjunto doutrinário, pois assim permite o seu progresso e correção de possíveis pontos equivocados?
Eis acima as indagações que vamos procurar responder para esclarecimento do movimento espírita.
Desde o séc. XIX, período no qual foi revelada a Doutrina Espírita e da publicação de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” há mais de 150 anos, a ciência procura compreender, do ponto de vista histórico, quem, de fato, foi o homem que mais influenciou a humanidade ao ponto de dividir o nosso tempo em antes e depois de seu nascimento: Os religiosos o chamam de Jesus Cristo.
Para alcançar seus propósitos, a ciência, naturalmente, se distanciou da visão mítica, sobrenatural, miraculosa e divina de Jesus criada pela religião para atender as suas necessidades. Diante das inúmeras controvérsias encontradas nos evangelhos canônicos acerca de seu nascimento, vida e morte; das suspeitas de adulterações que os textos sofreram ao longo do tempo; ou simplesmente, dos enxertos de fatos que nunca ocorreram e de palavras que jamais foram proferidas por Jesus, não era mais possível encarar as Escrituras como a única e incontestável fonte de pesquisa. Tinha-se que buscar outros caminhos.
A partir daí, os historiadores começaram a buscar outras fontes de pesquisa que pudessem ajudá-los a descobrir quem foi o Jesus Histórico: qual é o seu verdadeiro nome? Quem são seus pais? Quando e onde nasceu? Onde foi criado? Constituiu família? Quais foram as influências culturais e religiosas que recebeu? Qual é a essência da sua filosofia?
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| Cavernas de Qumran, no Mar Morto |
A Arqueologia deu a sua contribuição, encontrando outros livros e documentos relacionados à vida de Jesus. Muitos deles são chamados de apócrifos, pois, segundo a religião, não são de inspiração divina.
No entanto, a ciência foi em busca também dos documentos mais antigos do Novo Testamento. Ela quer saber qual é a fonte desses escritos, ou seja, ela quer ter acesso aos documentos originais. Apesar de não ter logrado êxito, existem resultados muito relevantes acerca das adulterações que os evangelhos canônicos, os inspirados por Deus, segundo a religião, sofreram.
O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é que os espíritas não podem ficar indiferentes a essas pesquisas. O motivo é simples: os Espíritos Superiores colocam Jesus como o modelo de perfeição moral a ser seguido pelos homens e o Espiritismo com a missão de resgatar e complementar a sua mensagem. Assim, tudo o que diz respeito a ele, também diz respeito ao Espiritismo. A publicação de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, contendo as explicações das suas máximas morais em concordância com o ensino dos Espíritos é uma evidência da estreita relação da Doutrina com a vida e filosofia do homem de Nazaré. Portanto, não há como ignorar os avanços da ciência neste sentido.
Outro ponto não menos relevante diz respeito à idoneidade das Escrituras. Para facilitar o entendimento, tomemos como exemplo os dez mandamentos: supondo que eles são de origem divina, é fácil concluir, sob a ótica espírita, que Moisés, ao subir o monte Sinai, recebeu as referidas leis através da sua mediunidade. Um Espírito, emissário de Deus, comunicou-se com ele e transmitiu as regras gerais de bem proceder adequadas ao povo hebreu daquela época.
Mesmo supondo que toda Escritura seja uma obra mediúnica, o espírita que tem a consciência da diversidade dos Espíritos e da influência moral do médium nas comunicações, sabe que nem tudo procede dos bons Espíritos, e mesmo se procedesse, as comunicações correm o risco de serem adulteradas pelo seu intermediário. Cabe a nós, com o uso da lógica, do bom-senso e da razão separar o joio do trigo, com bem disse Jesus. O mais intrigante é que são os próprios Espíritos que fazem essa recomendação, por vezes esquecidas por nós. Veja o que o Espírito Erasto diz a esse respeito:
“...fazei-a (Erasto refere-se às comunicações espíritas) passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”1
Portanto, sob esse ponto de vista, as Escrituras devem receber o mesmo tratamento que damos as comunicações de além-túmulo.
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| Antigo fragmento do Evangelho, Papiro 45 (Século III) |
No entanto, se fizermos uma análise menos mística e mais realista das Escrituras, em conformidade com os últimos estudos da ciência, veremos que os quatro evangelhos canônicos foram escritos muitos anos após a morte de Jesus. Que os documentos mais antigos que chegaram até nós datam de muitos séculos após sua morte. Conforme o Ph.D em Teologia, Bart D. Ehrman, afirma: “Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias deles. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens...”2. Ele arremata o assunto desta forma: “... há mais diferenças entre os nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.”2 Portanto, diante de declarações tão graves, todo o cuidado é pouco para afirmar qualquer coisa acerca da vida de Jesus e só um cego, diante das evidências, é capaz de tomar as Escrituras como verdades absolutas.
Em qualquer dos casos, concluímos que os espíritas não podem ignorar e nem condenar os estudos da ciência sobre o Jesus Histórico.
Por fim, o caráter científico e progressista do Espiritismo impõe a necessidade de aceitar as novas descobertas e corrigir possíveis pontos equivocados da filosofia espírita que estejam em controvérsias com a ciência. Deixemos Kardec nos esclarecer:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” 3
Diferente dos que pensam muitos religiosos, a ciência não vem provar a inexistência do homem de Nazaré, mas mostrar que a sua imagem esculpida pela religião cristã é muito diferente daquela que realmente ele foi.
A visão de um homem comum, como qualquer outro de sua época, com pai e mãe conhecidos, nascido e criado numa família numerosa e pobre de uma província subjugada pelo Império Romano; que cresceu de acordo com os preceitos da religião judaica; que aprendeu o ofício de seu pai para sustentar a sua família; que poderia ter se casado e filhos; que à medida que ganhou consciência de si mesmo e do mundo a sua volta, percebeu a necessidade de se fazer uma atualização na lei mosaica, muitas delas arcaicas e antiquadas ao seu tempo; que a hipocrisia dos sacerdotes do seu tempo o indignava, pois pregavam a lei mosaica, mas não a praticavam; que o sofrimento e a ignorância do povo judeu criaram nele um sentimento enorme de compaixão diante das mazelas humanas. Tudo isso, o motivou para arregaçar as mangas e combater de frente os problemas da sua época e dar nova esperança ao povo. Não com armas e exércitos, mas com o sentimento que pode transformar a realidade de qualquer um: o amor.
Finalizo, deixando como reflexão as próprias palavras do homem de Nazaré: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.4
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo XX – Da Influência Moral do Médium, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
2. Ehrman, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus não Disse? Quem mudou a bíblia e por quê; tradução Marco Marciolino. 2ª edição, Rio de Janeiro, Editora Agir, 2015.
3. KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 55.
4. João Cap. 8 vv 32
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