sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Espiritismo e Jesus Histórico

Uma das pinturas mais antigas de Jesus 
Os espíritas do séc. XXI precisam compreender quais são as consequências para o Espiritismo das novas descobertas que a ciência fez acerca de Jesus. Esse estudo é batizado pelos próprios cientistas de Jesus Histórico, uma busca pelo homem de carne e osso por trás do Jesus da fé, cunhado há dois milênios pela religião cristã. Com efeito, temos de um lado a Igreja com sua visão ortodoxa e fundamentalista das Escrituras, e do outro a ciência com sua perspectiva crítica e cética dos textos sagrados. Diante de um cenário de inúmeras controvérsias, são suscitados aos espíritas os seguintes questionamentos: eles devem condenar essas descobertas, pois creem que as Escrituras sagradas são de origem divina, e, portanto, não cabe ponderação? Devem se tornar indiferentes a elas, pois quaisquer descobertas da ciência não interferirão na filosofia espírita? Ou devem abraçá-las e aceitá-las, agregando ao seu conjunto doutrinário, pois assim permite o seu progresso e correção de possíveis pontos equivocados?
Eis acima as indagações que vamos procurar responder para esclarecimento do movimento espírita.
Desde o séc. XIX, período no qual foi revelada a Doutrina Espírita e da publicação de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” há mais de 150 anos, a ciência procura compreender, do ponto de vista histórico, quem, de fato, foi o homem que mais influenciou a humanidade ao ponto de dividir o nosso tempo em antes e depois de seu nascimento: Os religiosos o chamam de Jesus Cristo.
Para alcançar seus propósitos, a ciência, naturalmente, se distanciou da visão mítica, sobrenatural, miraculosa e divina de Jesus criada pela religião para atender as suas necessidades. Diante das inúmeras controvérsias encontradas nos evangelhos canônicos acerca de seu nascimento, vida e morte; das suspeitas de adulterações que os textos sofreram ao longo do tempo; ou simplesmente, dos enxertos de fatos que nunca ocorreram e de palavras que jamais foram proferidas por Jesus, não era mais possível encarar as Escrituras como a única e incontestável fonte de pesquisa. Tinha-se que buscar outros caminhos.
A partir daí, os historiadores começaram a buscar outras fontes de pesquisa que pudessem ajudá-los a descobrir quem foi o Jesus Histórico: qual é o seu verdadeiro nome? Quem são seus pais? Quando e onde nasceu? Onde foi criado? Constituiu família? Quais foram as influências culturais e religiosas que recebeu? Qual é a essência da sua filosofia?
Cavernas de Qumran, no Mar Morto
A Arqueologia deu a sua contribuição, encontrando outros livros e documentos relacionados à vida de Jesus. Muitos deles são chamados de apócrifos, pois, segundo a religião, não são de inspiração divina.
No entanto, a ciência foi em busca também dos documentos mais antigos do Novo Testamento. Ela quer saber qual é a fonte desses escritos, ou seja, ela quer ter acesso aos documentos originais. Apesar de não ter logrado êxito, existem resultados muito relevantes acerca das adulterações que os evangelhos canônicos, os inspirados por Deus, segundo a religião, sofreram.
O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é que os espíritas não podem ficar indiferentes a essas pesquisas. O motivo é simples: os Espíritos Superiores colocam Jesus como o modelo de perfeição moral a ser seguido pelos homens e o Espiritismo com a missão de resgatar e complementar a sua mensagem. Assim, tudo o que diz respeito a ele, também diz respeito ao Espiritismo. A publicação de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, contendo as explicações das suas máximas morais em concordância com o ensino dos Espíritos é uma evidência da estreita relação da Doutrina com a vida e filosofia do homem de Nazaré. Portanto, não há como ignorar os avanços da ciência neste sentido.
Outro ponto não menos relevante diz respeito à idoneidade das Escrituras. Para facilitar o entendimento, tomemos como exemplo os dez mandamentos: supondo que eles são de origem divina, é fácil concluir, sob a ótica espírita, que Moisés, ao subir o monte Sinai, recebeu as referidas leis através da sua mediunidade. Um Espírito, emissário de Deus, comunicou-se com ele e transmitiu as regras gerais de bem proceder adequadas ao povo hebreu daquela época.
Mesmo supondo que toda Escritura seja uma obra mediúnica, o espírita que tem a consciência da diversidade dos Espíritos e da influência moral do médium nas comunicações, sabe que nem tudo procede dos bons Espíritos, e mesmo se procedesse, as comunicações correm o risco de serem adulteradas pelo seu intermediário. Cabe a nós, com o uso da lógica, do bom-senso e da razão separar o joio do trigo, com bem disse Jesus. O mais intrigante é que são os próprios Espíritos que fazem essa recomendação, por vezes esquecidas por nós. Veja o que o Espírito Erasto diz a esse respeito:
“...fazei-a (Erasto refere-se às comunicações espíritas) passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”1
Portanto, sob esse ponto de vista, as Escrituras devem receber o mesmo tratamento que damos as comunicações de além-túmulo.
Antigo fragmento do Evangelho, Papiro 45 (Século III)
No entanto, se fizermos uma análise menos mística e mais realista das Escrituras, em conformidade com os últimos estudos da ciência, veremos que os quatro evangelhos canônicos foram escritos muitos anos após a morte de Jesus. Que os documentos mais antigos que chegaram até nós datam de muitos séculos após sua morte. Conforme o Ph.D em Teologia, Bart D. Ehrman, afirma: “Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias deles. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens...”2. Ele arremata o assunto desta forma: “... há mais diferenças entre os nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.”2 Portanto, diante de declarações tão graves, todo o cuidado é pouco para afirmar qualquer coisa acerca da vida de Jesus e só um cego, diante das evidências, é capaz de tomar as Escrituras como verdades absolutas.
Em qualquer dos casos, concluímos que os espíritas não podem ignorar e nem condenar os estudos da ciência sobre o Jesus Histórico.
Por fim, o caráter científico e progressista do Espiritismo impõe a necessidade de aceitar as novas descobertas e corrigir possíveis pontos equivocados da filosofia espírita que estejam em controvérsias com a ciência. Deixemos Kardec nos esclarecer:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” 3
Diferente dos que pensam muitos religiosos, a ciência não vem provar a inexistência do homem de Nazaré, mas mostrar que a sua imagem esculpida pela religião cristã é muito diferente daquela que realmente ele foi.
A visão de um homem comum, como qualquer outro de sua época, com pai e mãe conhecidos, nascido e criado numa família numerosa e pobre de uma província subjugada pelo Império Romano; que cresceu de acordo com os preceitos da religião judaica; que aprendeu o ofício de seu pai para sustentar a sua família; que poderia ter se casado e filhos; que à medida que ganhou consciência de si mesmo e do mundo a sua volta, percebeu a necessidade de se fazer uma atualização na lei mosaica, muitas delas arcaicas e antiquadas ao seu tempo; que a hipocrisia dos sacerdotes do seu tempo o indignava, pois pregavam a lei mosaica, mas não a praticavam; que o sofrimento e a ignorância do povo judeu criaram nele um sentimento enorme de compaixão diante das mazelas humanas. Tudo isso, o motivou para arregaçar as mangas e combater de frente os problemas da sua época e dar nova esperança ao povo. Não com armas e exércitos, mas com o sentimento que pode transformar a realidade de qualquer um: o amor.
Finalizo, deixando como reflexão as próprias palavras do homem de Nazaré: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.4 
Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1.    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo XX – Da Influência Moral do Médium, Segunda Parte – Das manifestações espíritas.
2.    Ehrman, Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus não Disse? Quem mudou a bíblia e por quê; tradução Marco Marciolino. 2ª edição, Rio de Janeiro, Editora Agir, 2015.  
3.    KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 55.
4.    João Cap. 8 vv 32

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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A MISSÃO DE CADA UM

Todos nós temos missões a cumprir. Qual é a sua?
Em 3 de outubro comemora-se o aniversário de Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido por nós espíritas por Allan Kardec. Nasceu na cidade de Lyon, na França em 1804, e testemunharia na Terra todas as transformações de ordem científica, filosófica, política, econômica e social do século XIX. Temos as descobertas da eletricidade e do magnetismo, as revoluções industriais, a propagação do positivismo e do materialismo, os regimes monárquicos da Europa caem para dar lugar às Repúblicas, Karl Marx divulga suas ideias socialistas em contra posição às capitalistas.
Foram necessários 50 anos de vida para Kardec se deparar, pela 1º vez, com os fenômenos das mesas girantes. Era necessário que ele estivesse pronto para revelar aos homens uma das maiores descobertas daquele século: o Espiritismo.
Assim que Kardec percebeu o que havia por trás daqueles fenômenos, que para grande maioria da sociedade só era motivo de entretenimento, tratou de investigá-lo com seriedade, perseverança, recolhimento e sem ideias preconcebidas, pautado na Ciência da observação. Não tardou para que os Espíritos responsáveis pela propagação do Espiritismo o procurassem e revelassem sua missão. Eis o que diz o Espírito de Verdade a Kardec numa comunicação recebida em 1856, antes da publicação de “O Livro dos Espíritos”.       
“... Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo...”.1
A profecia de “O Espírito de Verdade” confirmou-se. Ao aceitar de bom grado a sua missão, Kardec experimentou todos os dissabores que podem ser proporcionados pelo orgulho e egoísmo humano.
Coloquemo-nos, por um instante, na posição de Kardec ao receber esta comunicação de tal gravidade. Qual seria a nossa reação? Deus deu ao homem o livre-arbítrio para que ele possa ser senhor do seu próprio destino. Nós podemos optar por uma vida tranquila, estagnados na nossa zona de conforto, sem tribulações, sem aborrecimentos, uma vida de “paz”!
Entretanto, nós, espíritas, que temos a consciência da vida futura, que sabemos que a nossa situação no plano espiritual dependerá exclusivamente do mal que evitarmos e do bem que fizermos ao nosso próximo, o que faríamos?
Todos nós temos as nossas missões, consonantes com as nossas forças e grau evolutivo, e haverá mil infortúnios para não cumpri-las. No entanto, não há vitória sem mérito. É preciso que cada um descubra a sua, aceite-a humildemente e trabalhe para torná-la real, assim como fez Kardec.  

Por João Viegas
Referências bibliográficas:
1. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, Minha primeira iniciação no Espiritismo – 12 de junho de 1856 Minha Missão. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Palestras do I Simpósio de Espiritismo e Ciência

Saudações amigos leitores!
 Divulgamos nesta postagem as palestras do I Simpósio de Espiritismo e Ciência. Evento promovido e organizado pelo Instituto de Pesquisa em Ciência Espírita (IPCE) e realizado no Centro Espírita Francisco de Assis nos dias 17 e 18 de julho de 2015 em Fortaleza-CE. 
  É, sem dúvida, uma excelente oportunidade de aprendizado. Aproveitem!     

I SIMPÓSIO ESPIRITISMO E CIÊNCIA
CEFA FORTALEZA-CE 17/07/2015
IPCE - INSTITUTO de PESQUISA EM CIENCIA ESPÍRITA
PALESTRA DE ABERTURA COM LUCIANO KLEIN: "KARDEC: O HOMEM E SEU TEMPO" 

I SIMPÓSIO ESPIRITISMO E CIÊNCIA
CEFA FORTALEZA-CE 18/07/2015
IPCE - INSTITUTO de PESQUISA EM CIENCIA ESPÍRITA
PALESTRA COM AROLDO LINS: "REENCARNAÇÃO E OS ESTUDOS CIENTÍFICOS"

I SIMPÓSIO ESPIRITISMO E CIÊNCIA
CEFA FORTALEZA-CE 18/07/2015
IPCE - INSTITUTO de PESQUISA EM CIENCIA ESPÍRITA
PALESTRA COM EDUARDO LIMA: "CIÊNCIA E RELIGIÃO" 

I SIMPÓSIO ESPIRITISMO E CIÊNCIA
CEFA FORTALEZA-CE 18/07/2015
IPCE - INSTITUTO de PESQUISA EM CIENCIA ESPÍRITA
PALESTRA COM MAURÍCIO MENDONÇA: "REGRESSÃO DE MEMÓRIA E CIÊNCIA"

I SIMPÓSIO ESPIRITISMO E CIÊNCIA
CEFA FORTALEZA-CE 18/07/2015
IPCE - INSTITUTO de PESQUISA EM CIENCIA ESPÍRITA
PALESTRA COM SÉSIO SANTIAGO: "ALLAN KARDEC E SEU MÉTODO DE PESQUISA"

sábado, 1 de agosto de 2015

Cobertura do I Simpósio de Espiritismo e Ciência

I Simpósio de Espiritismo e Ciência
O I Simpósio de Espiritismo e Ciência foi realizado em 17 e 18 de julho em Fortaleza-CE no Centro Espírita Francisco de Assis (CEFA). O evento foi uma iniciativa do Instituto de Pesquisa em Ciência Espírita (IPCE) em parceria com o CEFA. Diversos palestrantes foram convidados para abordar o Espiritismo do ponto de vista científico.

Na noite de abertura do evento (17), a plateia foi brindada com o palestrante Luciano Klein, abordando o tema “Allan Kardec: o homem e seu tempo”. Foi uma legítima aula de história, mostrando e analisando vários fatos da ciência, da filosofia e da política que ocorreram até a metade do séc. XIX e que proporcionaram as condições necessárias para revelação espírita. Klein também fez apontamentos reveladores sobre o início do movimento espírita no Ceará.

No sábado (18) as atividades foram retomadas após o almoço. O primeiro a tomar a tribuna foi Aroldo Lins, como o tema “Reencarnação e os Estudos Científicos”. Lins mostrou com maestria a plateia quem foram os primeiros pesquisadores sobre reencarnação, utilizando-se de mecanismos como a terapia de vidas passadas, experiências quase morte e hipnose. Fez um apanhado geral sobre os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores Hemenda Banerjee, Ian Stevenson, Jim Tucker, dentre outros.

Em seguida, tivemos na tribuna o membro do IPCE, Eduardo Lima, que proferiu a palestra “Ciência e Religião”. Lima, bem fundamentado na epistemologia da ciência, demonstrou com argumentos consistentes o caráter científico da Doutrina. Balizou sua explanação nos estudos do físico e filósofo Thomas Kuhn. Demonstrou de maneira clara e objetiva que os procedimentos adotados por Kardec diante dos fenômenos das mesas girantes podem ser caracterizados como científica, conforme a atual visão que a comunidade acadêmica tem sobre a epistemologia da ciência. Lima conclui, portanto, que Kardec estava à frente de seu tempo.

Após o intervalo para o lanche foi a vez do presidente do IPCE, Maurício Mendonça, assumir a tribuna para proferir a palestra “Regressão de Memória e Ciência”. Mendonça abordou com muita propriedade e tranquilidade as suas pesquisas nesta área. Ele publicou duas obras: “O Fenômeno da Regressão de Memória” e “Memórias de Nefertiti”, resultado de seus trabalhos com regressão de memória que podem ser encontrados na internet. No entanto, ele também esclareceu que o recurso com regressão deve ser usado apenas com fins terapêuticos e/ou para investigação deste fenômeno para pesquisa científica, nunca por curiosidade.
Participantes do Simpósio

Durante o Simpósio, alguns participantes registraram suas impressões sobre o evento. A grande maioria avaliou-o positivamente, fazendo elogios sobre a iniciativa do CEFA e do IPCE por permitir ao movimento espírita e a sociedade em geral essa oportunidade de estudo e debate dos princípios doutrinários com abordagem científica. Tivemos participantes que são frequentadores e trabalhadores de diversas instituições espíritas, das quais citamos algumas: Grupo Espírita Paulo e Estevão (GEPE-Água Fria), Grupo Espírita Luz no Lar (GELUZ-Caucaia), Grupo Espírita Meimei, Sociedade Espírita de Maracanaú (SOESMA-Maracanaú), Grupo Espírita Bezerra de Menezes (Sobral) e Centro Espírita Casa de Miramez. Por fim, destacamos a presença de Lucenildo Sales de Campina Grande, Paraíba que soube do Simpósio e foi convidado por intermédio de sua amiga Jihane Diogo, frequentadora do GEPE-Água Fria. Lucenildo é espírita desde 2008 e frequenta o Lar de Sheilla em Campina Grande. Durante a entrevista concedida, ele afirmou: “... estou muito satisfeito, gostei muito do simpósio. Na verdade, superou minhas expectativas, ..., pretendo voltar se tiver outra edição.”

 Os participantes do Simpósio ainda foram agraciados com a mesa redonda com a psicoterapeuta Caroline Treigher, expondo todo seu conhecimento técnico e sua experiência clínica com o recurso da regressão de memória com fins terapêuticos. Em seguida tivemos o palestrante Sésio Santigo, com o relevante tema “Allan Kardec e seu método de Pesquisa”. O evento foi finalizado com a palestra sobre Transcomunicação Instrumental (TCI) com o ícone do movimento espírita Clóvis Nunes.

O I Simpósio de Espiritismo e Ciência foi um sucesso e deixou saudades. Trouxe palestrantes muito competentes que abordaram temas da maior relevância para o Espiritismo e para ciência. O Simpósio mostrou que os estudos científicos dos princípios doutrinários são um campo ilimitado de possibilidades, abrindo oportunidade para futuras edições.

Aqueles que desejarem assistir as entrevistas concedidas por palestrantes e participantes do Simpósio podem acessar gratuitamente através da página

http://cefafortaleza.org.br/entrevistas-do-i-simposio-de-espiritismo-e-ciencia/

No entanto, o álbum de fotos pode ser visualizado através do link

http://cefafortaleza.org.br/i-simposio-espiritismo-e-ciencia-album/

  Vale a pena conferir!

Por fim, brevemente teremos a disposição dos leitores as palestras do Simpósio na íntegra. Assim que estiverem disponíveis, será divulgado no site do CEFA.

Por João Viegas 


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Terceira Lei de Newton Espiritual

Criança brinca lançando bola contra parede
De forma tradicional podemos definir a terceira lei de Newton, que é ensinada no 1º ano do ensino médio nas aulas de Física, da seguinte forma: “A toda ação corresponde uma reação igual e de sentido oposto.”. Assim, dados dois corpos A e B, se o corpo A age, aplicando uma força Fa sobre o corpo B, então o corpo B reagirá, aplicando uma força Fsobre o corpo A. As forças Fa e Fb terão a mesma intensidade, mesma direção, porém sentidos opostos.
Ao jogar uma bola contra uma parede temos que a bola aplica uma força à parede que reage aplicando outra força à bola. Assim, a bola voltará para aquele que a arremessou, com a mesma intensidade de seu lançamento. Este exemplo é exato se desprezarmos a gravidade da Terra e atritos produzidos pelo ar.
Esta lei está presente a todo instante de nosso cotidiano, nos atos mais simples até os mais sofisticados. Ficar de pé, andar, correr, pular são consequências desta lei. O movimento de carros, ônibus, caminhões, aviões e até foguetes espaciais também derivam da mesma causa. As órbitas de astros, planetas e satélites são produzidas pelas forças de atração da matéria que estão de acordo com a 3ª lei de Newton. Até o dramático episódio do lutador de UFC Anderson Silva, que no final de 2013 teve sua perna quebrada após aplicar um golpe em seu oponente tem relação direta com a lei que foi revelada no séc. XVII pelo cientista que dá nome a ela.
Lançamento de foguete obedece a 3º de Newton
As relações entre os seres inteligentes do Universo, que são os Espíritos, criados por Deus, estejam encarnados ou desencarnados, se dão de forma semelhante à 3ª lei de Newton. Kardec em “O Céu e o Inferno” escreve um interessante capítulo que se chama “Código Penal da Vida Futura”. Em seu artigo 8º ele afirma: 
Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha consequências fatais, como não há uma única ação meritória, um só bom movimento da alma que se perca...”.
No artigo 12º ele sanciona:  
“... a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.”.
Resumimos abaixo os artigos 16º e 17º: três são as condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências: arrependimento, expiação e reparação. O arrependimento é a consciência da falta cometida e o desejo sincero em não mais errar e reparar seus equívocos. A expiação consiste nos sofrimentos morais e físicos que são consequências dos atos que prejudicou a si próprio ou a outrem, pois todo o mal praticado retornará a quem o gerou. A reparação, finalmente, consiste em fazer o bem àqueles a que se havia feito o mal.
Kardec nos esclarece no artigo 13º que a expiação pode ser suavizada ou até mesmo anulada pela prática do bem.
Para que a justiça de Deus seja satisfeita e exercida em toda sua plenitude, de acordo com os termos colocados acima, temos que necessariamente admitir a anterioridade e imortalidade da alma à vida corporal como também a pluralidade das existências para que todas as faltas possam passar pelas três condições: arrependimento, expiação e reparação.
De maneira diversa da 3ª lei de Newton, fica claro que não cabe ao ofendido, magoado ou prejudicado fazer justiça com as próprias mãos, pois apenas criaria um ciclo vicioso sem fim. Cabe apenas o perdão sincero, se libertando do ódio e da vingança, infelizmente, sentimentos ainda comuns nos espíritos que povoam a Terra. Apenas o Criador tem o direito e o poder de restabelecer a justiça no tempo e lugar devidos.
As leis material e espiritual que foram brevemente elucidadas acima mostram a suprema inteligência e sabedoria do Criador, que mantém o equilíbrio e a harmonia do Universo e entre os seres que vivem nele.
    Finalizamos com uma poesia atribuída a Einstein que retrata de forma singela as leis que foram discutidas neste artigo: 

A vida é como jogar uma bola na parede:
Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul;
Se for jogada uma bola verde, ela voltará verde;
Se a bola for jogada fraca, ela voltará fraca;
Se a bola for jogada com força, ela voltará com força.
Por isso, nunca "jogue uma bola na vida" de forma
que você não esteja pronto a recebê-la.
A vida não dá nem empresta;
não se comove nem se apieda.
Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir
aquilo que nós lhe oferecemos.

Por João Viegas

   Referências Bibliográficas:
1. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Tradução de Manuel Justiniano Quintão. 32ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Código penal da vida futura. Cap. VII As penas futuras segundo o Espiritismo. Primeira Parte – Doutrina.

2. RESNICK, Robert; HALLIDAY, David; KRANE, Kenneth. Física 1. Traduções de Gabriel Franco, Luiz Vaz, Marcio Moreno, Maria Myrrha, Olísia Damasceno, Ramayana Gazzinelli, Suely Grynberg. 4ª ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A. 5.6 A Terceira Lei de Newton, cap. 5 Forças e Leis de Newton.

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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Críticas a Alto Astral - Parte 2

A mediunidade é o tema que será desenvolvido neste artigo. Este princípio doutrinário foi usado e abusado pela novela Alto Astral. Foram muitas visões, audições, adivinhações, “incorporações”, curas e fenômenos de efeitos físicos. Apesar de ter sido retratada de forma bem extravagante, devemos discernir o que é possível e viável daquilo que é apenas um recurso cênico.

Incorporação?
Dr. Castilho (Espírito) incorpora em médica psiquiatra.  

Por diversas vezes é possível assistir os Espíritos querendo se comunicar. Eles simplesmente entravam, por falta de palavra mais precisa, nos corpos dos médiuns e se apossavam deles. A partir daí, começava a “incorporação” e só terminava quando ele dava todo o seu recado. Citamos como exemplo, a incorporação do Dr. Castilho em uma médica psiquiatra, que para dar parecer favorável a Caíque, internado com diagnóstico de esquizofrenia, apossou-se de seu corpo, redigiu e assinou o laudo de sanidade mental de seu paciente, liberando-o em seguida.  
Podemos encontrar esclarecimentos em “O Livro dos Médiuns”, sobre os mecanismos da mediunidade. Porém, como o termo “incorporação” não foi usado por Kardec, preferimos referenciar o pesquisador Hermínio C. Miranda que resolve a questão: Afinal, existe ou não existe a “incorporação”? Segue abaixo as suas considerações.
“A ligação do espírito manifestante com o médium se dá por uma espécie de acoplamento dos respectivos perispíritos na faixa da aura, onde, em parte, se interpenetram. Daí a impropriedade do termo incorporação. O espírito desencarnado, não entra, com seu períspirito, no corpo do médium após desalojar o deste. Não é preciso isso e nem possível. Kardec adverte que o manifestante não se substitui ao espírito do médium. O que ocorre, portanto, é a ligação de ambos pelos terminais do perispírito de cada um, com um plug de eletricidade se liga numa tomada. É por esse acoplamento que o médium cede espaço para que o manifestante tenha acesso aos seus comandos mentais (cerebrais) e, dessa forma, possa movimentar-lhe os instrumentos necessários à fala, ao gesto, à expressão de suas emoções e ideias.”1
Acrescentamos, fundamentados em Hermínio e também em relatos de médiuns próximos a nós, que neste processo ocorre, normalmente, o desdobramento do médium.   
     Concluímos, portanto, que as cenas que possuem efeitos especiais para simular as incorporações, devem ser consideradas apenas como um recurso cênico, sem relação com os esclarecimentos da Doutrina. 

Todos somos médiuns?

Bella (Espírito) incorpora em uma pessoa para dar um recado a Caíque
Pelas inúmeras incorporações encenadas, passa-se a falsa impressão que qualquer Espírito pode utilizar o corpo de qualquer pessoa para se comunicar. Basta, para isso, incorporá-lo. Citamos o caso onde Caíque conversava com uma pessoa num bar, quando Bella resolveu “incorporá-la” para pedir a Caíque que saísse dali e se encaminhasse pra outro lugar. Portanto, concluímos: todos somos médiuns?
Kardec define com exatidão o médium como segue abaixo:
“Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva. É de notar-se, além disso, que essa faculdade não se revela, da mesma maneira, em todos. Geralmente, os médiuns têm uma aptidão especial para os fenômenos desta, ou daquela ordem, donde resulta que formam tantas variedades, quantas são as espécies de manifestações. As principais são: a dos médiuns de efeitos físicos; a dos médiuns sensitivos, ou impressionáveis; a dos audientes; a dos videntes; a dos sonambúlicos; a dos curadores; a dos pneumatógrafos; a dos escreventes, ou psicógrafos.”2
Podemos concluir, conforme definição de Kardec, que nem todos são médiuns, no sentido de possuir essa faculdade de forma ostensiva e evidente. Outra informação relevante é que cada médium tem uma aptidão própria, ou seja, uns são videntes, outros audientes, de efeitos físicos, psicográficos ou piscofônicos etc, podendo, no entanto, serem reunidas, em um mesmo médium, mais de um tipo. Assim, a novela acertou quando mostrou Samantha apenas como médium audiente, e abusou mostrando vários médiuns com diversas aptidões.

Qualquer Espírito pode se comunicar por um médium?

Outra questão não menos importante é que mesmo que se tenha um médium com uma determinada aptidão, como por exemplo, a psicofonia, não significa dizer que qualquer Espírito, caso desejasse, consiga se comunicar.
Kardec, em seu diálogo com o céptico, no livro “O Que é o Espiritismo” confirma tal condição e explica o seu motivo conforme segue abaixo:
Sabemos que os fenômenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo, porquanto dependem da vontade dos Espíritos; mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica, nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento.(...)
Limito-me a dizer-vos que as afinidades fluídicas, princípio do qual dimanam as faculdades mediúnicas, são individuais e não gerais, podendo existir do médium para tal Espírito, e não para tal outro; que, sem essas afinidades, cujas variantes são múltiplas, as comunicações são incompletas, falsas ou impossíveis; que, as mais das vezes, a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece depois de algum tempo, ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez.3

Efeitos físicos, como acontece?
Após Bella (Espírito) dar um sopro, os papéis de Caíque voam pelos ares 

Os fenômenos de efeitos físicos eram os mais usados pela novela. Bastava que o Espírito desse um sopro... e tudo começava a voar: papel, poeira e objetos em geral. Citamos o primeiro encontro entre Caíque e Laura, quando Bella joga pelos ares os desenhos de Caíque apenas com um sopro. Outro exemplo é com Morgana, que para evitar que um casal se sentasse à mesa ocupada por ela e Castilho, faz uma ventania no bar para espantá-los.     
Para que ocorram os fenômenos de efeitos físicos faz-se necessária a presença de um médium com a referida aptidão, apesar do Espírito poder produzi-los à sua revelia. Assim, as afinidades fluídicas entre eles vai determinar a possibilidade do fenômeno. Portanto, o papel do médium se restringe a disponibilizar fluido magnético para que o Espírito possa manipulá-lo e combiná-lo com seu próprio fluido.    
Morgana (Espírito) espanta casal com efeitos físicos
Antes que os Espíritos pudessem explicar como aconteciam as manifestações físicas, à época da revelação espírita, acreditava-se que eles atuavam na matéria através de seus corpos espirituais (períspiritos) materializados. Assim, para levantar uma mesa, o Espírito usava suas mãos para suspendê-la. Para gerar um ruído numa porta, eles a batiam com as mãos, assim como nós fazemos. Desta teoria poderíamos inferir que foi o sopro de Bella que fez subir pelos ares os desenhos de Caíque. Kardec faz uma pergunta aos Espíritos sobre esta teoria. A resposta é surpreendente para a nossa mente ainda tão limitada. Vejamos:
Dizes que o Espírito não se serve de suas mãos para deslocar a mesa. Entretanto, já se tem visto, em certas manifestações visuais, aparecerem mãos a dedilhar um teclado, a percutir as teclas e a tirar dali sons. Neste caso, o movimento das teclas não será devido, como parece, à pressão dos dedos? E não é também direta e real essa pressão, quando se faz sentir sobre nós, quando as mãos que a exercem deixam marcas na pele?
“Não podeis compreender a natureza dos Espíritos nem a maneira por que atuam, senão mediante comparações, que de uma e outra coisa apenas vos dão idéia incompleta, e errareis sempre que quiserdes assimilar aos vossos os processos de que eles usam. Estes, necessariamente, hão de corresponder à organização que lhes é própria. Já te não disse eu que o fluido do perispírito penetra a matéria e com ela se identifica, que a anima de uma vida factícia? Pois bem! Quando o Espírito põe os dedos sobre as teclas, realmente os põe e de fato as movimenta. Porém, não é por meio da força muscular que exerce a pressão. Ele as anima, como o faz com a mesa, e as teclas, obedecendo-lhe à vontade, se abaixam e tangem as cordas do piano. Em tudo isto uma coisa ainda se dá, que difícil vos será compreender: é que alguns Espíritos tão pouco adiantados se encontram e, em comparação com os Espíritos elevados, tão materiais se conservam, que guardam as ilusões da vida terrena e julgam obrar como quando tinham o corpo de carne. Não percebem a verdadeira causa dos efeitos que produzem, mais do que um camponês compreende a teoria dos sons que articula. Perguntai-lhes como é que tocam piano e vos responderão que batendo com os dedos nas teclas, porque julgam ser assim que o fazem. O efeito se produz instintivamente neles, sem que saibam como, se bem lhes resulte da ação da vontade. O mesmo ocorre, quando se exprimem por palavras.”4
Supondo que Caíque seja médium de efeitos físicos e que ele tem afinidades fluídicas com Bella, podemos concluir, de acordo com a resposta acima dos Espíritos, que não foi seu sopro que provocou tal fenômeno, mas a manipulação dos fluidos pela ação da vontade de Bella é a verdadeira causa. Como os Espíritos que provocam esses fenômenos são ainda materializados, eles não conseguem compreender os mecanismos por trás deles.

Vidência x materialização

Caíque (médium) quase atropela Dirce (Espírito). 
A grande maioria dos médiuns de Alto Astral tinham a vidência. Os Espíritos sempre eram vistos muito bem definidos, ao ponto dos médiuns julgarem se tratar de pessoas vivas. Citamos como exemplos, a cena onde Caíque freia bruscamente seu carro para evitar que o Espírito Dirce fosse atropelada. Por sua vez, Afeganistão, que é médium, passou muito tempo acreditando que Dirce era uma pessoa viva. Dirce tornou-se sua professora de língua portuguesa e depois sua namorada.
Talvez não seja de grande espanto para o público em geral da novela, que podemos supor que seja espiritualista, a aparição dos Espíritos. Mas o que dizer sobre as materializações? Será possível tocar, abraçar e até beijar os Espíritos? O que há de maravilhoso e possível nestas cenas?
Selecionamos um resumo de Kardec acerca do tema que segue abaixo:
Afeganistão (médium) e Dirce (Espírito) se beijam
“O Espírito, que quer ou pode fazer-se visível, reveste às vezes uma forma ainda mais precisa, com todas as aparências de um corpo sólido, ao ponto de causar completa ilusão e dar a crer, aos que observam a aparição, que têm diante de si um ser corpóreo. Em alguns casos, finalmente, e sob o império de certas circunstâncias, a tangibilidade se pode tornar real, isto é, possível se torna ao observador tocar, palpar, sentir, na aparição, a mesma resistência, o mesmo calor que num corpo vivo, o que não impede que a tangibilidade se desvaneça com a rapidez do relâmpago.
Nesses casos, já não é somente com o olhar que se nota a presença do Espírito, mas também pelo sentido tátil. Dado se possa atribuir à ilusão ou a uma espécie de fascinação a aparição simplesmente visual, o mesmo já não ocorre quando se consegue segurá-la, palpá-la, quando ela própria segura o observador e o abraça, circunstâncias em que nenhuma dúvida mais é lícita.
Os fatos de aparições tangíveis são os mais raros; porém, os que se têm dado nestes últimos tempos, pela influência de alguns médiuns de grande poder e absolutamente autenticados por testemunhos irrecusáveis, provam e explicam o que a história refere acerca de pessoas que, depois de mortas, se mostraram com todas as aparências da realidade.
Todavia, conforme já dissemos, por mais extraordinários que sejam, tais fenômenos perdem inteiramente todo caráter de maravilhosos, quando conhecida a maneira por que se produzem e quando se compreende que, longe de constituírem uma derrogação das leis da Natureza, são apenas efeito de uma aplicação dessas leis.”5
Kardec considera perfeitamente possível as materializações dos Espíritos, que foi chamada por ele de aparições tangíveis. No entanto, põem esses fenômenos nas fileiras das exceções e não da regra, pois raros são os médiuns que possuem essa aptidão. Apesar deles serem extraordinários, são perfeitamente explicados pelas leis reveladas pelo Espiritismo.
Assim, a crítica que fazemos à novela, no que diz respeito às materializações, foi o abuso que se fez deste princípio doutrinário.

Curas espirituais ou procedimentos cirúrgicos?
Caíque cura mulher pela imposição das mãos

Caíque abriu um ala para pacientes que não tinham como pagar pelos atendimentos no hospital onde trabalhava. Através da sua mediunidade, operou a cura em várias pessoas, das quais destacamos o caso de uma senhora que teve a perna curada pela imposição das mãos. Laura, por sua vez, foi curada duas vezes por Caíque, uma após sofrer um acidente de carro e outra após uma queda que provocou sangramento, correndo o risco de perder seu bebê.
Segue abaixo alguns esclarecimentos de Kardec acerca deste tema:
“Como se há visto, o fluido universal é o elemento primitivo do corpo carnal e do perispírito, os quais são simples transformações dele. Pela identidade da sua natureza, esse fluido, condensado no perispírito, pode fornecer princípios reparadores ao corpo; o Espírito, encarnado ou desencarnado, é o agente propulsor que infiltra num corpo deteriorado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. A cura se opera mediante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. O poder curativo estará, pois, na razão direta da pureza da substância inoculada; mas, depende também da energia da vontade que, quanto maior for, tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tanto maior força de penetração dará ao fluido. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar a cura, seja homem ou Espírito. Os fluidos que emanam de uma fonte impura são quais substâncias medicamentosas alteradas.
São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os doentes, de acordo com as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamento prolongado, como no magnetismo ordinário; doutras vezes é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de tal poder, que operam curas instantâneas nalguns doentes, por meio apenas da imposição das mãos, ou, até, exclusivamente por ato da vontade. Entre os dois pólos extremos dessa faculdade, há infinitos matizes. Todas as curas desse gênero são variedades do magnetismo e só diferem pela intensidade e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: o fluido, a desempenhar o papel de agente terapêutico e cujo efeito se acha subordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais.”6
Diante desses esclarecimentos, precisamos fazer uma distinção clara entre
Caíque salva seu irmão após ter levado um tiro.
curas espirituais e procedimentos cirúrgicos. A cura espiritual não requer nenhum tipo de contato do médium com o paciente, pois a ação é realizada através do magnetismo do Espírito, do médium, ou de ambos. Assim, não podem ser consideradas curas espirituais aquelas pelas quais foram usadas algum tipo de ferramenta cirúrgica no corpo do paciente, mesmo que venha ser feita por um Espírito através de um médium. Intervenções cirúrgicas são da alçada da medicina, com profissionais habilitados, em condições e lugares bem específicos. Apenas os médicos, nas suas diversas áreas de atuação, tem a competência para efetuar tais procedimentos, pois responderão por todos seus atos profissionais perante a lei.
Fazemos essa distinção, pois há cenas de curas em Alto Astral que misturam procedimentos cirúrgicos com magnetismo. Essa prática deve ser combatida pelos motivos expostos acima.
Outro aspecto relevante levantado por Kardec trata-se das qualidades dos fluidos envolvidos nas curas. Quanto maior for a pureza do fluido, maior será a sua capacidade de cura. A pureza deste fluido está diretamente relacionada às questões morais do médium e do Espírito.
Assim, o médium de cura precisa fazer da benevolência, da indulgência e do perdão das ofensas, uma prática diária na sua relação com o outro. Além disso, cabe ressaltar que durante as curas, o médium precisa estar bem harmonizado e tranquilo para cumprir com a sua tarefa. Qualquer desvio de atenção pode ser prejudicial, pois alterará as qualidades de seus fluidos. Por isso, vemos com muitas reservas as cenas de curas protagonizadas por Caíque para salvar o amor de sua vida após um acidente de carro, sua filha que ainda estava em gestação, e, por fim, seu irmão que levou um tiro, resultado de um confronto entre os dois. O envolvimento de Caíque com os pacientes era muito forte e as situações eram extremas, não havendo condições fluídicas para operar uma cura. Se levarmos em conta que houve apenas procedimentos cirúrgicos nas curas, através de sua mediunidade, reiteramos nosso combate a essas práticas.

Conclusões:

Poderíamos continuar explorando os diversos temas que são tratados pela novela. No entanto, preferimos terminar por aqui pela extensão deste artigo. Quem quiser abordar outros temas, estejam à vontade para postar suas considerações. Abriremos o debate com o maior prazer.
Após essa análise, podemos facilmente concluir que os princípios espíritas foram amplamente difundidos por Alto Astral. Que apesar de conter equívocos e abusos, os benefícios foram muito maiores. Talvez a grande sacada de seu autor,Daniel Ortiz, foi ter elaborado uma trama que tratasse abertamente dos princípios espíritas sem falar de Espiritismo, ou seja, sem falar de Kardec, de como ocorreu a revelação espírita, da literatura espírita, dos vultos espíritas etc... Ortiz, para deixar seu público religioso mais à vontade, inseriu muitas tramas que não tinham relação com as questões espirituais. Assim, o público, com diversos credos e crenças, poderia assisti-la sem preconceitos e sem agressão a sua fé. Foi uma fórmula que deu certo.
Para finalizar, gostaríamos de transcrever o diálogo entre Caíque e Castilho (Espírito) após curarem uma senhora. Ele resume o propósito da vida encarnada que está em consonância com a filosofia espírita e também com os ensinos morais do Homem de Nazaré:
Castilho: Eu fiz exatamente igual, a quando eu ti salvei naquele acidente de avião, lembra? Você era muito menino.
Caíque: Ah! Eu estou me sinto tão bem, Castilho! Feliz! Feliz!! Não lembro de nada, mas estou sentindo um alívio no meu coração, sabe, uma sensação boa.
Castilho: Caíque, você viu quanto tempo nós perdemos? Se você não fosse tão cético, nós teríamos começado nossos trabalhos há um tempão.
Caíque: Eu preciso muito te agradecer, Castilho! Por ter aparecido na minha vida. Por ter me mostrado esse caminho, esse caminho...
Castilho: Você está me agradecendo? Caíque, realmente evoluiu...ah, ah! Mas você não tem que me agradecer, não! Você tem que agradecer a Ele (Castilho olha pra cima), não fazemos nada sem a fé. Amar ao próximo é fazer todo o bem que nos é possível, como gostaríamos que fizessem a nós.
Caíque: Eh! É esse o sentido de amai-vos uns aos outros, não é isso?
Castilho: E você pode ficar muito orgulhoso, Caíque. Que nós estamos finalmente fazendo o bem, sem pedir nada em troca. Estamos a caminho da evolução.7
Por João Viegas

Referências bibliográficas:

1.     Miranda, Hermínio C.. Diversidade dos Carismas. 8ª ed. São Paulo. Ed. Lachâtre. Incorporação?, Mediunidade, cap. XIII.
2.     KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, ítem 159, Dos Médiuns, cap. XIV - segunda parte.
3.     KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999, Médiuns Interesseiros, Diálogo com Céptico – primeira parte.
4.     KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, questão XXIV, Da Teoria das Manifestações Físicas, cap. IV - segunda parte.
5.     KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Ensaio Teórico sobre as aparições, Das Manifestações Visuais, cap. VI - segunda parte.
6.     KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Curas, II Explicação de alguns fenômenos considerados sobrenaturais, Os fluidos cap. XIV.


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