segunda-feira, 27 de abril de 2020

Entrevista com Jaqueline Caimo

                             

         O momento pelo qual o Planeta vive hoje de pandemia do novo coronavírus é de muita gravidade. Até o momento, mais de 3 milhões de pessoas foram infectadas e mais de 210 mil1 vidas foram ceifadas pela COVID-19 em todo mundo, tudo isto num período de 4 meses. No Brasil, os infectados passam de 66 mil e há mais de 4 mil1 mortes. Apesar dos números serem, por si só, assustadores, tanto de infectados como de mortes, esta doença torna-se distante quando não estamos frente a frente com este inimigo invisível.

Porém, há uma pequena parcela da sociedade que convive com a pandemia quase que diariamente. Parcela esta que é testemunha ocular destes números que são frios quando expressos nestas linhas, no entanto, ganham significado real quando se vê a morte bem de perto.

Refiro-me, naturalmente, aos profissionais de saúde, que hoje representam, simbolicamente, os soldados que estão no front, nas trincheiras, prontos para lutar contra o inimigo. Infelizmente, essa condição expõe a vida destes profissionais e de seus familiares também.

Por fim, para tentar sensibilizar nosso querido leitor da gravidade da situação e fazer uma singela homenagem aos profissionais de saúde, convidei a técnica de enfermagem Jaqueline Caimo a conceder essa entrevista, que gentilmente aceitou. Segue a transcrição abaixo:

 

Espiritismonaessencia - Jaqueline, inicialmente, gostaria de agradecer por aceitar o convite. Por gentileza, fale um pouco sobre você, sua profissão e religião?

Jaqueline - Agradeço a oportunidade de participar e contribuir um pouco neste blog. Sou Jaqueline Caimo, formada como Técnica de Enfermagem atuante na área de maternidade, sou cristã, religião católica, atuante na minha religião colaborando sempre que necessário, participando das atividades religiosas (missas, catequese e liturgia).

 

Espiritismonaessencia - Como a pandemia do novo coronavírus mudou a sua rotina no trabalho e em casa?

Jaqueline - O maior impacto da rotina é o isolamento social por ser da área da saúde devendo preservar minha família e potencializar os cuidados com a higiene antes de chegar em casa, após a saída do plantão hospitalar. Está sendo necessário me resguardar com relação às saídas em geral que não são caracterizadas como atividade essencial.

 

Espiritismonaessencia - Como é ter que conviver com uma doença que provoca muitas mortes diariamente e com o medo de se contaminar e contaminar sua família?

Jaqueline - Todos nós temos medo, principalmente aqueles que apresentam alguma comorbidade (doença preexistente) e que se enquadram na classe de risco, pois é a forma da doença ser mais agravante quando infectado. Trabalhamos de forma insegura na maioria das vezes pela alta velocidade da propagação da doença e por não ter EPI’s necessários e adequados para os procedimentos com esses pacientes, a preocupação e o medo também são maiores pela falta de leitos apropriados nos hospitais e pela falta de capacitação dos funcionários, e diversas situações.

Hoje o que nos move é a fé, e a esperança que dias melhores cheguem o mais rapidamente possível.

 

Espiritismonaessencia - Qual é a sua leitura dos outros profissionais de saúde que trabalham com você? Quais são os sentimentos que permeiam os corações dessas pessoas?

Jaqueline - Convivemos com um inimigo invisível que vem tirando a vida de muitos, os primeiros sentimentos são de medo e preocupação pela forma fácil de contaminação da doença, a preocupação é coletiva neste momento, principalmente com os nossos familiares e com nós mesmos que somos da área da saúde e que estamos na linha de frente com risco máximo de contaminação. A precaução do distanciamento dos nossos familiares é medido através do AMOR que temos para com eles nesta situação, tentando preservar as suas vidas.

 

Espiritismonaessencia - Você pode nos relatar algum caso que ocorreu durante a pandemia que tenha lhe marcado?

Jaqueline - São muitos casos, o mais impactante é o fato da família não conseguir se despedir do seu ente querido por conta da contaminação.

 

Espiritismonaessencia - Como a sua fé tem lhe ajudado a suportar esse momento? Você consegue imaginar passar por essa pandemia sem fé?

Jaqueline - Acreditar no Deus vivo que tudo isso chegue ao fim o mais breve possível, e que somente Deus nos proporciona esta força, fé e esperança. Minha fé é o meu sustento de agora.

 

Espiritismonaessencia - Essa pandemia já tem provocado mudanças em você? Do ponto de vista de visão de mundo, de conduta e comportamento? Como será a Jaqueline depois que essa pandemia passar?

Jaqueline - Sim, a valorização da vida, das pessoas queridas e que todos nós somos importantes para o outro, que a nossa profissão seja vista com mais respeito e reconhecimento, e que nós profissionais da área lutemos por essa valorização. Após essa pandemia não tem como ninguém ser mais o mesmo de antes, a valorização das relações pessoais, profissionais, religiosas com certeza terão laços mais fraternos e humanizados.

 

Espiritismonaessencia - Qual é a mensagem que você deixa para a sociedade sobre a pandemia?

Jaqueline - Gostaria de conscientizar a todos pelo amor próprio e ao próximo na luta contra esta guerra, devemos aderir o isolamento social e respeitar todas as recomendações de medidas preventivas para reduzir o nível da velocidade da contaminação, para que ao final de tudo o prejuízo seja o menor possível.

 

Espiritismonaessencia - Gostaria de agradecer, mais uma vez, Jaqueline, a sua disponibilidade em aceitar esse convite. Quero externar minha profunda admiração por você e por todos os profissionais de saúde que estão na linha de frente desta guerra, que estão lutando a favor da vida. Suas palavras finais.

Jaqueline - Cada um é responsável pelos seus atos e decisões, e neste momento possamos realizar a corrente do bem conscientizando a si próprio, buscando força, auxílio e proteção do nosso Deus que é esperança e a paz, e que o amor esteja no coração de todos para enfrentarmos com positividade esta provação. Estamos todos nesta guerra, ou melhor, somos os soldados da guerra e queremos sair dessa também com vida porque também somos o amor de alguém.

 

Referência bibliográfica

1 https://coronavirus.jhu.edu/#covid-19-basics

   


domingo, 19 de abril de 2020

Ánalise da mensagem "Lidar Consigo Mesmo"

 

A mensagem, cujo título é “Lidar Consigo Mesmo”, publicada aqui no blog, traz muitas reflexões e também possui alguns símbolos que cabem uma análise para compreendermos o seu verdadeiro sentido. Vamos abaixo tecer comentários a respeito:

O Espírito procura mostrar a oportunidade de aprendizado decorrente das medidas preventivas de contenção da pandemia do novo coronavírus, em especial, das medidas de isolamento social. Isolar-se da sociedade traz dois desafios: o de conviver com a solidão e com aqueles que moram conosco, a nossa família.

A solidão é uma oportunidade para lidar com os próprios sentimentos: a angústia, o medo e o temor. Essas são as palavras do Espírito. E lidar com eles é motivo de muito sofrimento, sendo o convívio com a sociedade a nossa válvula de escape. Com isso, a solidão é um caminho para o autoconhecimento. E o processo de transformação moral deve ser precedido dele. Mas o Espírito vai mais além, afirmando que a solidão é uma oportunidade para se amar. Se amar, neste sentido, pode ser compreendido como aceitação da nossa própria condição moral. Enfim, autoconhecimento e aceitação são os ingredientes necessários para a autotransformação.

Ainda falando da necessidade de se amar, o Espírito remete-se implicitamente ao 2º mandamento cristão: “amar ao próximo como a si mesmo”, pois só é possível amar o outro quando se ama, só é possível aceitar o outro quando se aceita, só é possível cuidar do outro quando se cuida, só é possível admirar o outro quando se admira. Enfim, a regra de ouro, representada na lei e os profetas, resumida na frase “fazer aquilo que gostaríamos que nos fizessem” é ressignificada, pois o bem deve ser feito inicialmente a si mesmo, e com este aprendizado adquirido, temos condições para fazer o bem ao próximo e amá-lo.

Mas há outro desafio: o do convívio familiar. Estar isolado implica ficar mais tempo com aqueles com quem moramos. E diante de um cenário hostil que vivemos de confinamento, com sentimentos não muito nobres a flor da pele, qualquer desentendimento, por menor que seja, pode desencadear um conflito sério, ao ponto de chegar em agressão física. Com efeito, a imprensa tem divulgado um aumento das denúncias de violência contra mulher nesse período de confinamento. Infelizmente, é um efeito colateral desta crise. Diante desse quadro, a tolerância é um caminho para pacificação, sendo a sugestão do Espírito simples e direta: “aproveita esse momento para conversar”.

O Espírito tece críticas às religiões que distorceram seu papel diante da nobre função de contribuir na comunhão das mulheres e homens para com Deus. Um exemplo desta distorção são os crimes de intolerância religiosa sofridos por religiões afrodescendente, infelizmente motivados por um sentimento equivocado de fundamentalismo religioso. Esta questão, inclusive, foi tema de um artigo do blog. Enfim, “Matar em nome de um Pai” parece distante para os brasileiros, mas não é incomum em outras regiões do mundo. Cito, como exemplo, o ataque assassino a redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo em 2015, no qual 15 pessoas foram mortas por extremistas islâmicos por Alá e vingança à Maomé.

Para falar propriamente das mortes provocadas pela pandemia do novo coronavírus que assola o planeta, o Espírito utiliza-se de um símbolo mítico: a Mãe Natureza. E esclarece que esta pandemia é um processo educativo, pois permite a mulheres e homens aprenderem a lidar com os sentimentos mais grosseiros, que nos afastam de Deus. O medo da morte é um deles. Numa visão espiritual deste momento, até a morte é um processo educativo para o espírito imortal que volta à Pátria Espiritual.

Por fim, é feito um alerta: é possível que nem todos aprendam com esta crise, e quando ela terminar, quando voltarmos ao convívio na sociedade, os sentimentos mais grosseiros como egoísmo, orgulho, inveja, vaidade, apego à matéria, ciúme, violência, ódio, rancor e tantos outros voltem com muito mais força do que antes. E o Espírito lança mais um símbolo: a manada sendo atacada por leões. Do ponto de vista espiritual, podemos interpretar este símbolo como os processos obsessivos em massa que são justamente viabilizados pelos sentimentos citados acima. Sendo assim, quando o Espírito afirma que “os leões atacam os doentes”, ele está se referindo as doenças da alma, que são os vícios morais, causa de todo nosso mal.

Ele termina de forma enigmática, pois coloca esse momento como um processo de educação moral, de fortalecimento da fé em Deus e em si mesmo. Sugere, portanto, que quando chegar momentos mais difíceis do que esse, estaremos prontos para enfrentá-lo, assim como o soldado está pronto para guerra.

sábado, 18 de abril de 2020

Lidar consigo mesmo

 

Queridos leitores!

Diante do momento que o Planeta vive hoje, mergulhado na pandemia do novo coronavírus, que até agora ceifou a vida de mais de 150 mil pessoas pelo mundo em menos de 4 meses, publico uma mensagem que recebi ainda em março que circulou pelas redes sociais. Infelizmente, não foi possível encontrar a sua fonte. Mas tudo indica que se trata de uma entidade que trabalha em terreiro de umbanda ou candomblé. Quero dizer com isso que é bem provável que seja um Preto Velho. Visto que a Espiritualidade Superior opera em todos os grupos mediúnicos sérios, independente de crença ou culto, julgo muito oportuno publicar essa mensagem num ambiente eminentemente espírita. Minhas motivações são simples. Embora a linguagem seja caracterizada por esse tipo de entidade, a sabedoria por trás desta roupagem nos traz muita reflexão sobre o momento atual em que vivemos, reflexão essa pouco comum encontrada no movimento espírita. Sendo assim, tomei a liberdade de fazer adequações ao texto para facilitar a leitura. Portanto, ofereço esta mensagem aqueles que tem a mente e o coração abertos para novas possibilidades, sendo também um exercício de humildade. Em breve, publicarei um artigo de análise desta mensagem. Aproveitem!

Lidar Consigo Mesmo
Na verdade, nesses tempos em que a Terra está passando, as pessoas estão falando que é para aprender, praticar a caridade, aprender concórdia, aprender comunhão. Na verdade, não! Já foi ensinado muito disso. Veja o desespero que as pessoas estão? Elas estão mais egoístas ainda. Sabe por quê? Porque o medo cega, a angústia cega, o desespero cega, é uma lei de sobrevivência do animal. Eu tenho que reservar as minhas coisas e que os outros morram.  
Na verdade, esse momento é oportuno para uma coisa só:  lidar consigo mesmo, lidar com o silêncio da alma, lidar com o silêncio do coração. As pessoas não estão conseguindo ficar quietas dentro de casa, não é porque estão acostumadas a sair. É porque estão acostumadas a fazer o uso de coisas externas para não lidar com a angústia interna. Se está incomodado ficar dentro de casa, o incômodo não é a casa física, não é? Comece a se admirar, comece a se amar, comece a se gostar, comece a se cuidar, comece a se abraçar, já que não pode abraçar os outros. Comece a se tocar, já que não pode tocar os outros.
Este é um ensino verdadeiro! Por que se eu me enxergo, se eu me toco, se eu me abraço, se eu me amo, eu amo os outros. Fora isso, é mentira! Fora isso, é fazer de atitudes externas a justificativa para não lidar com o interno.
Por isso que as pessoas estão angustiadas dentro de vossas casas. As famílias já não se conhecem mais, porque já não se conversam mais. É um estranho com um estranho, aproveita esse momento para conversar. Este é o aprendizado maior: se trancar para se abrir, se trancar para crescer, se trancar para se descobrir.
O silêncio dói, a solidão é necessária para quando voltar a viver em sociedade saiba o vosso papel, saiba o vosso lugar de responsabilidade no mundo. É o momento de descanso e de descoberta. Porque o ser humano estava tão na loucura e na correria, e usando as coisas da ciência e da tecnologia para se afastar mais. E hoje, tudo isto é para que se una mais consigo mesmo, para quando precisar se reunir com os outros, saiba do papel, saiba da responsabilidade.
A natureza é mãe e como mãe está ensinando. Já não respeitam mais o Pai. O Pai é a essência e ninguém toca no Pai. Fizeram tanta bagunça com a imagem do Pai, mataram em nome de um Pai, que é Deus! Fizeram e desfizeram e ainda fazem. Aí vem a mãe dizer: eu sou matéria. Eu sou aquilo que vocês são porque vieram do meu ventre. Então eu lhes educo e faço voltar também ao Pai.
É o equilíbrio da criação, portanto. É a mãe tentando ensinar ao filho, e a energia feminina ensina através do que? Dos sentimentos. É a mãe ensinando os filhos a lidar com sentimentos. Lide você consigo mesmo. Não deixe o medo, o temor, a angústia tomar conta. Abrace a mãe, perceba a mãe. Se necessário, volte ao útero da mãe para se refazer. A mãe é bondosa, não é castigo, é ensino.
Tome muito cuidado porque vocês podem fazer o inverso, ao invés de se fortalecer, se compreender e lidar com a solidão, com apego às pessoas, lidar com tudo isso e sair maior. Vocês podem sair mais egoístas, e aí vira presa fácil, também.
Imagine uma grande manada, uma grande manada. Os leões atacam os doentes, eles não atacam os fortes. Então se fortaleça para que outros momentos piores que estes, quando vierem, vocês já tenham sido um bom soldado. Fortalecido em si mesmo, carcado na fé, suportado por aquilo que é sagrado. Valorizando aquilo que merece valor. Não é isto que estão tendo que aprender?
Que assim seja! Que haja o aprendizado!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Tambores de Terreiros Silenciados

Traficantes entram armados em terreiro, ameaçam 
fiéis e depredam símbolos religiosos
Foto/Divulgação: TV Globo

Resolvi escrever esse artigo, que é uma compilação de diversas reportagens da imprensa, por indignação e repúdio aos casos de intolerância religiosa sofridos por umbandistas e candomblecistas, principalmente no ano passado. Por se tratar de uma minoria da sociedade brasileira que deposita sua fé em religiões ainda muito discriminadas, declaro minha solidariedade a todos que foram impedidos de exercer o seu direito ao culto religioso, previsto na Constituição Federal, sob ameaças de fuzis. Minha intenção também é sensibilizar o movimento espírita ao debate sobre questão tão grave e atual que pode bater à porta de qualquer instituição religiosa. Convido, portanto, querido leitor, a embarcar comigo e que ao final, possamos juntos levantar essa bandeira contra a intolerância religiosa. Vamos lá?
Traficantes, convertidos à fé cristã, resolveram fechar terreiros de umbanda e candomblé no Estado do Rio de Janeiro. Numa ação coordenada em maio de 2019, eles invadiram diversos terreiros armados de fuzis, destruindo símbolos religiosos e ameaçando à morte aqueles que insistissem em continuar suas práticas religiosas.
Uma das vítimas que não quis se identificar faz o seguinte relato sobre as ações desses criminosos:
Os barracões foram obrigados a fechar e está proibido. Não se toca mais o candomblé, não se toca mais a umbanda, não se exerce o direito de ser um brasileiro”.1
E continua:
Ninguém é maluco de peitar. Foram 15 barracões, 15 babalorixás de nome, de respeito, que não vão poder mais ser cidadãos”.1
Ivanir dos Santos é representante da
Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do RJ
Foto/Divulgação: TV Globo
De acordo com Ivanir dos Santos, que é representante da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, só em 2019, há, pelo menos, 200 casas sob ameaças de criminosos2, tanto no estado quanto na capital. No entanto, esses casos de intolerância religiosa ocorrem desde 2017, sendo intensificados no ano passado. A polícia afirma que as regiões onde ocorrem esses crimes são dominadas por uma mesma facção criminosa. São elas: Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Campos e bairros das zonas norte e oeste da cidade do Rio de Janeiro.
Diante deste quadro, o Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito sobre o assunto. Em entrevista concedida a TV Globo, o procurador da República, Júlio Araújo, esclarece: “a nossa esperança do MPF é que o tema entre na agenda, que,..., a violência religiosa seja encarada como uma questão de dignidade dessas pessoas, que efetivamente a gente consiga inibir essas práticas”.1     
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), criada em 2018, é a responsável por investigar esses casos e pede a população que denuncie esses crimes.
Em julho do mesmo ano mais um crime ocorreu em Duque de Caxias. Criminosos armados invadiram uma casa que funcionava há 50 anos e obrigaram a líder religiosa do local, com mais de 80 anos de idade, a quebrar todos os símbolos que representam os Orixás. Além disso, ameaçaram voltar para atear fogo no terreiro. O caso foi registrado na Decradi.2    
Pai de Santo Roberto Braga é líder religioso
de um terreiro em Nova Iguaçu
Foto/Divulgação: TV Globo   
Enquanto esses crimes não se resolvem, religiosos vivem com medo de exercer a sua fé. O Pai de Santo Roberto Braga, líder de um terreiro em Nova Iguaçu, desabafa: ”Quando você proíbe alguém de executar, de exercer sua função sacerdotal já é uma grande violência. É impossível você se manter firme na hora que,..., é proibido de exercer o seu credo1. E arremata dizendo: ”Estão todos com medo1.
Após 3 meses de investigação, a Polícia Civil do Rio de Janeiro fez uma operação contra a intolerância religiosa em Duque de Caxias que culminou na prisão de 8 pessoas e morte de 1 homem4. Segundo a polícia, eles faziam parte de uma facção criminosa responsável por ordenar o fechamento de terreiros naquela região.
Segundo o delegado Túlio Pelosi, responsável pela investigação, eles integravam uma facção criminosa denominada “Bonde de Jesus”4. Foram identificados 21 traficantes, dos quais 8 foram presos nessa operação. 
Álvaro Malaquias Santa Rosa, vulgo Peixão
é suspeito de participar dos ataques a terreiros no RJ
Foto/Divulgação: G1
O chefe do Terceiro Comando Puro (TCP) no Parque Paulista, em Duque de Caxias, além de outras regiões do Rio de Janeiro é Álvaro Malaquias Santa Rosa, mais conhecido como Peixão, que segundo a autoridade policial, é pastor de uma igreja evangélica.
"Ele ia com esse grupo em terreiros de macumba, quebravam e ameaçavam os frequentadores, no sentido de fechar os terreiros. É um caso claríssimo de intolerância religiosa. O que ele quer é que terreiros de macumba não funcionem em comunidades dominadas pelo Terceiro Comando"4, afirmou o delegado”.
A autoridade policial continua com uma linha de investigação surpreendente.
Abrimos outra investigação para analisarmos a atuação de um pastor como ‘porta voz’ de Peixão nestes crimes”.4
Pelosi afirma ainda que os traficantes frequentam a Assembleia de Deus Ministério de Portas Abertas no Sarapuí, igreja de Duque de Caxias, sendo Peixão, um dos pastores.4 e 6  
 As reportagens consultadas afirmam que tentaram entrar em contato com os advogados do suspeito e da instituição religiosa, porém sem êxito.
Fomos em busca da reação da comunidade cristã acerca desses casos de intolerância religiosa. Tendo em vista que esses crimes são praticados há anos, encontramos uma nota publicada em setembro de 2017: a Aliança de Batistas do Brasil faz um discurso contundente contra crimes de ódio, racismo e liberdade religiosa.  
Repudiamos esses bárbaros atos não somente por que se configuram enquanto crimes de ódio, mas por que defendemos o respeito e a liberdade religiosa para todas as pessoas e, por isso, buscamos “Celebrar a diversidade da vida e da humanidade em todas as suas formas, respeitando as diferenças e promovendo o diálogo””.8
Bispo da Diocese de Campos, Dom Roberto Francisco Ferrería
repudiou os ataques a terreiros.
Foto/Divulgação: Folha1
Após ataques de criminosos a terreiros em Campos, Estado do Rio de Janeiro, em maio de 2019, o bispo da Diocese daquela localidade, Dom Roberto Francisco Ferrería Paz, também emitiu nota repudiando os ataques.
Repudiamos e manifestamos nosso total desacordo e desconformidade com a perseguição religiosa, a intolerância e violência que levou ao fechamento de terreiros. O desrespeito à liberdade religiosa e à liberdade de consciência ferem profundamente a democracia, a convivência social e torna-se uma grave ameaça à paz. Nossa bênção de consolação e paz9, disse o bispo.
 Querido leitor, é fácil ver nesta reportagem que grupos criminosos fundamentados numa visão distorcida da fé cristã resolveram praticar crimes de intolerância religiosa. Este tipo de prática deve ser repudiado por todas as denominações religiosas, em especial pelas cristãs diante de um caso tão absurdo como esse.
As discordâncias teológica e filosófica existentes entre as religiões sobre a sua conduta em vida, práticas de ritos religiosos e seu destino após a morte jamais poderão ser motivos de impedir as pessoas, quem quer que seja, de exercer seu sagrado direito, garantido pela Carta Magna, à diversidade de culto.
Finalmente, dedico este artigo a todos os umbandistas e candomblecistas que ainda veem sua fé ameaçada pela força do crime, pelo preconceito e extremismo religioso. Num ato de muito respeito e admiração saudou os Orixás: “Laroyê, Exu! Exu Mojubá!”; “Ogum yê!”; “Oke Arô!”; “Epa Hei!”; “Ora Yê Yê Ô!”; “Odoyá”; “Atotô”; “Saluba Nanã; “Euê-ô! Euê-ô! Euê-ô!”; “Kaô kabecilê!” e; “Êpa Babá”7

           Por João Viegas
Referências bibliográficas
1 – https://globoplay.globo.com/v/7647281/podendo ser visto em
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/05/27/traficantes-dao-ordem-para-fechar-terreiros-na-baixada-fluminense.ghtml
2 – https://globoplay.globo.com/v/7759761/podendo ser visto em
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/07/12/terreiro-de-candomble-e-destruido-em-duque-de-caxias-na-baixada-fluminense.ghtml
3 - https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/07/12/terreiro-de-candomble-e-destruido-em-duque-de-caxias-na-baixada-fluminense.ghtml
4- https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/08/14/policia-investiga-acao-do-bonde-de-jesus-contra-terreiros-de-religioes-de-matriz-africana-no-rj.ghtml
Podendo ser visto em
5 - https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/08/policia-prende-8-traficantes-do-bonde-de-jesus-que-atacava-terreiros-no-rio.shtml
Podendo ser visto também em
6 - https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/08/15/com-lider-pastor-faccao-tem-quartel-general-em-condominio-em-duque-de-caxias-rj.ghtml
7 - https://www.raizesespirituais.com.br/saudacoes-na-umbanda-e-candomble/
Podendo ser visto em
https://www.youtube.com/watch?v=TMssitRVNME
8 – https://www.conic.org.br/portal/noticias/2331-em-nota-alianca-de-batistas-repudia-ataques-a-terreiros
9 - https://www.folha1.com.br/_conteudo/2019/06/geral/1249046-bispo-repudia-ataques-a-terreiros-em-campos.html
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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Especial de Natal Porta dos Fundos x Fé Cristã – fatos e argumentos


Especial de Natal Porta dos Fundos 2019: após passar
pela tentação no deserto, Jesus volta para casa 
acompanhado de um misterioso amigo
Foto/Divulgação: Netflix 
Desde que o “Especial de Natal Porta dos Fundos: A primeira Tentação de Cristo” entrou em exibição a partir de 3 de dezembro do ano passado na plataforma streaming Netflix, vem provocando muitas reações e indignação em grupos religiosos e disputas judiciais entre os dois lados desta polêmica.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu nota sobre desrespeito a fé cristã, em 12 de dezembro de 2019. Segue abaixo um trecho:  
A CNBB repudia recentes fatos que, em nome da liberdade de expressão e da criatividade artística, agridem profundamente a fé cristã (grifos meus). Ridicularizar a crença de um grupo, seja ele qual for, além de constituir ilícito previsto na legislação penal, significa desrespeitar todas as pessoas, ferindo a busca por uma sociedade efetivamente democrática, que valoriza todos os seus cidadãos.1
A Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil Ministério de Madureira (CONAMAD) também publicou nota de repúdio em 13 de dezembro. Ela diz assim:
Quando pessoas de bem se sentem humilhadas, afrontadas e desrespeitadas, cabe ao Estado garantir sua proteção. Afinal, trata-se da maior parcela da sociedade (grifos meus), que viu sua fé sendo ridicularizada e as sãs doutrinas desconstruídas.
Diante disso, a CONAMAD conclama a todos os cristãos, seja de qual for à denominação, a se unirem em oração e promover ações pacíficas (grifos meus) contra qualquer movimento que busque desconstruir nossas doutrinas e valores.2   
Houve reações também de outras denominações religiosas. A Associação Nacional dos Juristas Islâmicos (ANAJI) em 9 de dezembro escreveu o seguinte:
Não se permite é que uma pessoa intolerante possa agredir qualquer outra, motivada apenas pela sua ignorância (grifos meus) e falta de compreensão básica de respeitar a religião alheia, ultrapassando assim os limites da lei.
O desrespeito a qualquer Profeta atinge nós muçulmanos e assim vem descrito no Alcorão sobre o grande Profeta Jesus e sua mãe Maria. (A nota traz passagem do Alcorão sobre Jesus e Maria) (Alcorão 3:45-47).
Por esse motivo estamos contra qualquer desrespeito e em solidariedade aos nossos irmãos Cristãos, onde Deus diz no alcorão para nos auxiliarmos na virtude e piedade e não no pecado e hostilidade (Alcorão 5:02).3
Pedro Affonseca, presidente da
        Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura
Foto/Divulgação: Youtube 
Católicos indignados e ofendidos com a obra artística resolveram ir à justiça. Em 13 de dezembro a Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura entrou com uma ação pedindo a suspensão da exibição do Especial de Natal, assim como qualquer tipo de divulgação, como trailers e making off. Além disso, a Associação pediu uma indenização pelo dano moral coletivo de R$ 2.000.000,00.4  
A entidade religiosa alega que “a honra e a dignidade de milhões de católicos foi gravemente vilipendiada pelos réus,..., onde “Jesus é retratado como um homossexual pueril (grifos meus), Maria como uma adúltera desbocada e José como um idiota traído”"5
Em 19 de dezembro, a justiça do Rio de Janeiro, indeferiu, em caráter liminar, o pedido de suspensão do Especial de Natal, assim como a indenização. A juíza Adriana Moura considera que existe “um conflito claro entre valores constitucionais (grifos meus). De um lado está o direito à liberdade de expressão artística enquanto corolário da liberdade de expressão e pensamento e de outro a liberdade religiosa e a proteção aos locais de culto e as suas liturgias, consubstanciadas no sentimento religioso.6Segue, portanto, que no entendimento da magistrada, nenhum dos direitos tem caráter absoluto.      
Ainda que esta questão não tenha sida resolvida pela Suprema Corte deste país (STF) para que se tenha jurisprudência, a juíza entende que “somente deva ser proibida a exibição, publicação ou circulação de conteúdo, em verdadeira censura, que possa caracterizar ilícito, incitando a violência, a discriminação, a violação de direitos humanos, em discurso de ódio. (grifos meus)
Contudo, há que se ressaltar que o juiz não é crítico de arte e, conforme já restou assente em nossa jurisprudência, não cabe ao Judiciário julgar a qualidade do humor, da sátira (grifos meus), posto que matéria estranha às suas atribuições.” 6
Por fim, a juíza arremata a questão afirmando que embora a Associação Centro Dom Bosco “esteja se sentindo ultrajada em seu sentimento religioso”, considera “ausente o perigo de dano irreparável ou de difícil reparação”, sugerindo que a mesma “não assista ao programa em questão e até mesmo não tenha mais contrato a com a,..., Netflix, em sinal de sua indignação. (grifos meus)”6
Momento do ataque a produtora do Porta dos Fundos:
segurança estava no local e conteve o fogo
Foto/Divulgação: Polícia Civil do RJ  
Entretanto, no dia 24 de dezembro, por volta das 4 horas da manhã, algo aconteceu que mudou a história deste caso. Um grupo criminoso atacou a sede da produtora do Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, lançando coquetéis molotov na faixada do prédio. Na ocasião, apenas o segurança estava no local, que conteve o fogo com extintor de incêndio.7
Houve reações por diversos setores da sociedade sobre o ocorrido. “O Porta dos Fundos condena qualquer ato de ódio e violência e, por isso, já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades e espera que os responsáveis pelos ataques sejam encontrados e punidos".7 O ataque foi repudiado pelo bispo-auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Antonio Augusto Dias Duarte. O bispo diz o seguinte:
É preciso deixar bem claro que Jesus Cristo não veio promover os ataques e a violência entre pessoas, mas sim a paz e a harmonia (grifos meus). Se Jesus é representado como bêbado ou como gay, isso não pode, de jeito nenhum, ocultar a verdadeira identidade de Jesus, um Deus que vem para o mundo com uma única finalidade, resgatar o homem para o bem. Seja um ataque com bombas, seja uma postura homofóbica, seja uma caricatura de Jesus Cristo, o que está por cima de tudo isso é o valor que Jesus dá a cada pessoa, independentemente de suas posições favoráveis ou desfavoráveis a ele”.9
Fábio Porchat:
           humorista e um dos líderes do Porta dos Fundos
Foto/Divulgação: TV Globo   
O humorista Fábio Porchat, um dos líderes do Porta dos Fundos publicou um artigo no jornal “O Globo”, no qual defendeu o Especial de Natal, a liberdade de expressão, criticou a intolerância e sugeriu as possíveis motivações deste ataque. Ele começa dizendo o seguinte:
"Sinto lhe informar, mas com religião se brinca sim (grifos meus). Com qualquer uma. Se brinca com religião, com futebol, com política, com a minha mãe, com o Detran, com o que você quiser. Isso não sou eu que estou dizendo, é a Constituição brasileira".8 
Durante o artigo, ele sugere ao leitor, subjetivamente, possíveis motivações para o ataque:
"O Porta dos Fundos fez Especial de Natal em 2013, 14, 15, 16, 17, 18 e nunca houve nenhuma reação violenta direta. Por que será que, em 2019, algumas pessoas se sentiram à vontade para atirar coquetéis molotovs na nossa porta? O que mudou neste ano especialmente para que pessoas tivessem essa audácia justamente agora? (grifos meus) Eu tenho um palpite. E você?", questionou o humorista....8
E continua com críticas ácidas ao movimento religioso brasileiro:
"Satirizar a bíblia, olhe só, não é contra a lei. Chutar a [imagem de] Nossa Senhora é contra a lei. Depredar centros de umbanda é contra a lei. Dizer que você tem que parar de tomar remédio e só quem cura é Deus é contra a lei. Jogar coquetel molotov em uma produtora porque não gostou do que ela produziu é contra a lei. E, veja, brincar com a imagem de Deus não é intolerância. Intolerância é não querer deixar que brinquem (grifos meus)"... 8
Em defesa de seu trabalho, ele afirma e finaliza:
Sátiras são fundamentais para que uma sociedade democrática (como, por acaso, ainda é o Brasil) possa rir de si mesma (grifos meus)"8. E que se orgulha de "fazer parte de um núcleo criador que escancara nossa podridão. "Viva o humor! Viva a liberdade de expressão! Viva a tolerância! E, por que não, viva Jesus!"8
Em função do crime praticado em 24 de dezembro, a polícia do Rio de Janeiro investigou o caso analisando as filmagens no momento do ataque e chegou a um suspeito: o economista, de 41 anos, formado pela UFRJ, Eduardo Fauzi. Antes de ser decretada a sua prisão em 30 de dezembro, Fauzi embarcara no dia anterior para Rússia. Em entrevista à Bandnews, ele alegou que a viagem já estava programada para passar o Natal Ortodoxo, cuja celebração ocorre em 7 de janeiro, com a família que mora lá. Disse, inclusive, que pretende voltar para o Brasil em 30 de janeiro, mas está avaliando esta possibilidade: “se eu sentir, se eu entender que a minha segurança pessoal, física está em perigo, eu vou optar por não me apresentar nesse momento”.10
Fauzi é considerado foragido pela justiça brasileira e seu nome está na lista de procurados pela Interpol. Questionado se participou do ataque à sede do Porta dos Fundos, ele preferiu não responder, considerando ser uma estratégia de defesa.
Em 7 de janeiro de 2020, outra decisão judicial deu uma reviravolta no caso. Novamente a justiça do Rio de Janeiro proferiu nova decisão, desta vez, a favor dos cristãos. O Desembargador Benedicto Abicair mandou suspender a exibição do Especial de Natal na Netflix. Na sua decisão, o magistrado alega os seguintes argumentos:     
As liberdades de expressão, artística e de imprensa são primordiais e essenciais na democracia. Entretanto, não podem elas servir de desculpa ou respaldo para toda e qualquer manifestação (grifos meus), quando há dúvidas sobre se tratar de crítica, debate ou achincalhe.” 11
Contudo, sou cauteloso, seguindo a esteira da doutrina e jurisprudência, leia-se STF, de que o direito à liberdade de expressão, imprensa e artística não é absoluto (grifos meus). Entendo, sim, que deve haver ponderação para que excessos não ocorram, evitando-se consequências nefastas para muitos, por eventual insensatez de poucos.11
Daí a minha avaliação, nesse momento, é de que as consequências da divulgação e exibição da “produção artística” da primeira Agravada são mais passíveis de provocar danos mais graves e irreparáveis do que sua suspenção (grifos meus), até porque o Natal de 2019 já foi comemorado por todos.11
 Por todo o exposto, se me aparenta, portanto, mais adequado e benéfico, não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, majoritariamente cristã, até que se julgue o mérito do Agravo, recorrer-se à cautela, para acalmar ânimos (grifos meus).11
Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF):
       proferiu decisão para manter o Especial de Natal em exibição
Foto/Divulgação: Carlos Moura/Veja
O último capítulo desta disputa judicial ocorreu em 9 de janeiro. O Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, proferiu decisão favorável ao Porta dos Fundos, autorizando a exibição do Especial. Na sua decisão, ele escreve:     
Não se descuida da relevância do respeito à fé cristã (assim como de todas as demais crenças religiosas ou a ausência dela). Não é de se supor, contudo, que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã (grifos meus), cuja existência retrocede há mais de 2 (dois) mil anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros”.12
Querido leitor, estes são os fatos mais relevantes, até o presente momento, acerca deste caso tão controverso que divide a opinião pública. Consideramos relevante elaborar este artigo, que é uma compilação de diversas reportagens da imprensa digital, para que o querido leitor possa se apropriar dos argumentos de ambos os lados e elaborar juízo de valor, haja vista que o maior símbolo cristão está no centro desta polêmica. Este artigo também tem o objetivo de estimular o debate produtivo e respeitoso dentro do movimento espírita acerca das liberdades de expressão e religiosa.
Entretanto, muitos colegas do movimento espírita podem entender que temas dessa natureza não tem relação com a Doutrina Espírita. Ao contrário, acreditamos que a Doutrina, desde a sua revelação, sempre esteve envolvida em casos de preconceito e censura pela sua própria natureza espiritual e que na condição de religião, com diversos vultos pode ser utilizada como material de sátiras de grupos humorísticos. Então? Qual será a sua postura?

Por João Viegas

Referências bibliográficas:


2.  https://www.facebook.com/CONAMAD.oficial/ , podendo ser consultado em
facebook.com/CONAMAD.oficial/photos/a.1234564973225340/3209993739015777/?type=3&theater

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O Presépio: a Origem dos Reis Magos


Presépio esculpido pelo artista barroco Machado de Castro.
Encontra-se na Basílica da Estrela, em Lisboa.

Há registros de que os presépios em Portugal começaram a ser esculpidos por artistas a partir do séc. XVI EC. As Igrejas foram contempladas por essas obras esplendorosas, que eram normalmente financiadas pela nobreza da época.
Um dos escultores barrocos portugueses mais renomados chama-se Machado de Castro1. Ele foi contratado pela Rainha D. Maria para esculpir um presépio com peças de barro, pois ela tinha feito uma promessa: mandou erguer a Basílica da Estrela, em Lisboa, na esperança de ficar grávida.
O grandioso presépio do magnífico artista encontra-se no interior da Basílica. Ele possui mais de 400 imagens que retratam cenas bíblicas e do cotidiano. É considerado o primeiro presépio com a adoração dos reis magos ao menino Jesus.
Feita essa breve introdução com viés artístico, daremos prosseguimento aos nossos estudos. Afinal de contas: foram três, reis, ou simplesmente magos que visitaram o menino Jesus?
Segundo o evangelista Mateus, “eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “ Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos sua estrela surgir e viemos homenageá-lo2
Mateus continua:
“Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles a respeito do tempo em que a estrela tinha aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes: “Ide e procurai obter informações exatas a respeito do menino e, ao encontrá-lo, avisai-me, para que também eu vá homenageá-lo.3
Sendo assim, os magos seguiram para Belém, guiados pela mesma estrela que surgiu, até o lugar onde o menino estava.
“Ao entrar na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se o homenagearam. Em seguida, abriram seus cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.”4
O texto termina com a tal matança das crianças em Belém, de dois anos para baixo, ordenada por Herodes, pois fora enganado pelos magos. Eles voltaram para sua região por outro caminho que não passasse por Jerusalém, pois assim foram advertidos em sonho. 
Principais personagens do presépio da Basílica da Estrela:
Maria, José e o menino Jesus
Apesar de Mateus ser o único evangelista canônico a relatar sobre os magos, podemos encontrar discurso muito semelhante num manuscrito apócrifo denominado protoevangelho de Tiago, ou evangelho da Infância de Tiago. O texto é tão parecido que é fácil inferir que foi simplesmente copiado.
O leitor atento vai observar que Mateus não afirma que os magos são reis, nem muito menos três. Pode-se afirmar apenas que foi mais de um. Talvez pelo número de presentes, julga-se quantos magos foram homenageá-lo.
Outra questão, não menos relevante desta passagem, é que o menino foi encontrado pelos magos apenas com sua mãe em uma casa. Sendo assim, José, pai do menino, simplesmente evaporou do discurso de Mateus desde o nascimento de Jesus. Ou seja, o presépio inspirado por Mateus não tem José.
O Padre Raymond Brown, considerado o decano dos especialistas do Novo Testamento, em sua monumental obra “O Nascimento do Messias”, levanta a tese de que existem diversas dificuldades para a historicidade da visita dos magos, sendo bem provável que essa estória seja resultado de uma “profecia historicizada”9. Ou seja, os magos de Mateus foram uma elaboração inspirada nas antigas profecias do Messias encontradas no Antigo Testamento.
O ilustríssimo padre chama a atenção para três aspectos da narrativa de Mateus que enfraquecem seu caráter histórico. Porém, achamos suficiente transcrever apenas um que segue abaixo:
A estória está muito mal contada:
“A narrativa do episódio em que Herodes reuniu os sacerdotes e escribas para consultá-los não revela nenhuma percepção da amarga oposição que existia entre Herodes e os sacerdotes nem do fato de não estar o sinédrio (grupo formado pelos sacerdotes) à sua disposição... O desconfiado Herodes não faz nenhuma tentativa de seguir os magos na viagem de 8 km, de Jerusalém até Belém. Dá para imaginar a impressão que os magos exóticos vindos do Oriente com presentes régios causaram em um pequeno povoado; porém, quando eles vão embora, o sistema de espionagem de Herodes não descobre que menino eles visitaram. O massacre de todos os meninos de dois anos para baixo não é mencionado no relato detalhado que Josefo faz dos horrores do reinado de Herodes.”8
O presépio da Basílica da Estrela é considerado
o primeiro com adoração dos Reis magos
Pois bem, querido leitor, se os magos foram uma invenção de Mateus, de onde ele pode ter tirado ela? De qual passagem do Antigo Testamento?
O padre Brown responde a essa questão remetendo-se a história de Balac e Balaão que pode ser encontrada em Números e que agora reproduzimos de forma resumida:
Balac é rei de Moab e seu povo está com pavor dos israelitas diante das suas conquistas territoriais provenientes das guerras. Num ato de desespero, o rei chama Balaão, que é uma espécie de profeta ou mago, as suas terras. Balaão vai ao encontro do rei acompanhado de dois de seus servos. Chegando em Moab, o rei Balac conclama Balaão a amaldiçoar os israelitas. Porém, o Deus que fala por Balaão, que é Jeová, o Deus de Israel, faz justamente o contrário: ele os abençoa. Por fim, uma das profecias de Balaão é a seguinte:
“Eu o apontarei, mas não agora; eu o contemplarei, mas não de perto; nascerá uma estrela de Jacó, e um homem sairá de Israel.”8
Ao final, Balaão retornou a sua terra sem atender à solicitação do rei Balac.
Segundo Brown, “no judaísmo antes do tempo de Jesus, essa passagem já era aplicada ao Messias, o rei ungido.” 8
Analisando as duas passagens podemos encontrar diversos paralelos:
Balaão, que é uma espécie de mago ou profeta, e seus servos se deslocam de suas terras ao encontro do rei Balac; os magos de Mateus também se deslocam de suas terras ao encontro do rei Herodes. Balaão profetiza afirmando que nasceria uma estrela simbolizando o Messias; os magos de Mateus viram uma estrela surgir que os levaria até o Messias. Balaão fora advertido por Jeová para que não atendesse o rei Balac de amaldiçoar o povo de Israel; os magos de Mateus foram advertidos em sonhos para não atender à solicitação do rei Herodes de informá-lo sobre o paradeiro do menino Jesus. A tentativa do rei Balac de amaldiçoar o povo de Israel é fracassada, assim como a tentativa do rei Herodes de matar o rei dos judeus (Jesus). Por fim, Balaão volta as suas terras; assim como os magos de Mateus.
            Evidentemente, as duas passagens possuem divergências, mas não há como negar as diversas semelhanças.
Quadro Comparativo entre as tradições dos Magos, contida no Novo Testamento 
    e de Balaão e o Rei Balac contida no Velho Testamento  
Segue, portanto, que é bem provável que a visita dos magos fora elaborada por Mateus para atender o seu viés teológico, pois de maneira análoga aos animais do apócrifo de pseudo-Mateus, conforme já discutido em artigo anterior (O Presépio: as Origens dos Animais) a presença deles era uma forma de reconhecer o menino como rei dos judeus por outros povos, prestando suas homenagens com presentes. Ao mesmo tempo, estavam se cumprindo as profecias do Messias com o nascimento de Jesus. Veja abaixo o que a Bíblia de Jerusalém diz a respeito:
Os presentes dos magos são “riquezas e perfumes da Arábia. Para os padres da Igreja simbolizam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (mirra) de Cristo. A adoração dos magos era o cumprimento dos oráculos messiânicos a respeito da homenagem que as nações prestariam ao Deus de Israel.”5   
Afinal, de onde surgiu a tradição dos três reis magos e de seus nomes?
Uma das profecias do Antigo Testamento citadas pela nota da Bíblia de Jerusalém pode explicar a origem da tradição que os magos são reis. Segue abaixo:
“Os reis Társis e das ilhas vão trazer-lhe tributo. Os reis de Sabá e Sebá lhe pagarão tributo; todos os reis se prostrarão diante dele, as nações todas o servirão.”6 
Segundo a Mestre em História Joelza Ester Domingues, foi no manuscrito chamado Excerpta Latina Barbari, de Alexandria, escrito por volta do ano 500 EC, que está a mais antiga menção aos nomes dos Magos: Bithisarea, Melichior e Gathaspa.
Uma das representação mais antigas dos três Reis Magos está em formato
de mosaico na Igreja São Apolinário Novo, na Itália, datado do ano 565 EC
 

Continuando a citar Domingues, “foi o monge beneditino inglês São Beda, o Venerável (673-735) que, seu tratato Excerpta et Colletanea, que deu forma e origem às figuras dos reis magos que a iconografia e a tradição cristalizaram. São Beda associou os reis magos a regiões do mundo antigo: Melchior, rei da Pérsia; Gaspar, rei da Índia; Baltazar, o único negro, rei da Arábia.” 7  
Segue, portanto, que as tradições concernentes a visita dos magos ao menino Jesus é resultado de uma profecia historicizada9do Antigo Testamento, além da aglutinação de diversas tradições canônica, apócrifa, e documentos muito posteriores a formação do Novo Testamento.
Uma questão que gostaríamos que o querido leitor refletisse é que a ida dos Magos a Jerusalém, a visita ao recém-nascido e a própria matança das crianças, só fazem sentido se Jesus tivesse nascido em Belém da Judeia. Porém, argumentamos, em artigo anterior (As Controvérsias do Nascimento de Jesus de Nazaré – Onde nasceu?), que, muito provavelmente, Jesus nasceu em Nazaré, na Galileia, fora da jurisdição de Herodes, a despeito das crenças acerca do Cristo.      
Além disso, é preciso ter boa dose de fé para acreditar que a estrela que guiou os magos até o Cisto, fez movimentos miraculosos do Oriente até Belém, lugar onde a tradição afirma ter nascido o Salvador. Este tema já foi discutido em artigo anterior (O Presépio: As origens da estrela de Belém).
No momento, querido leitor, faremos outra pausa sobre esse tema. Em breve, serão desenvolvidos e publicados mais artigos para discorrer sobre as outras personagens do presépio. Até a próxima! 
Por João Viegas
    Referências bibliográficas:
2. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap.2 vv 1 e 2.
3. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap.2 vv 7 e 9.
4. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus cap. 2 vv11
5. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Mateus. cap 2 vv 11
6. Bíblia de Jerusálem. 1ª edição, 2002. 10ª reimpressão, 2015. Ed. PAULUS. Salmos cap. 72 vv 10 e 11.
7. Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues Disponível em https://ensinarhistoriajoelza.com.br/reis-magos-realidade-ou-lenda/
8. Brown, Raymond. O Nascimento do Messias: comentário das Narrativas da Infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas. Tradução: Bárbara Theoto Lambert. Editora Paulinas. São Paulo. 2005.
9. Crossan, John Dominic. Quem matou Jesus? As Raízes do Anti- Semitismo na História Evangélica da Morte de Jesus. Tradução: Nádia Lamas. Editora Imago. Rio de Janeiro. 1995. 

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