sábado, 17 de janeiro de 2015

Liberdade, Religião e Fanatismo - Parte I

Homens armados nas ruas de Paris
      São resultados da intolerância e do fanatismo religiosos os atos terroristas ocorridos em sete de janeiro de 2015 em Paris, na França, quando dois homens armados invadiram a redação do jornal satírico Charlie Hebdo e executaram doze pessoas, sendo quatro cartunistas influentes e renomados, numa tentativa vingativa, insana e desesperada de cercear a liberdade de expressão, que é um direito conquistado e consolidado pelas nações democráticas.
      Durante o ataque, os dois terroristas abordaram uma mulher que trabalhava no jornal. Um deles disse: “Não vou te matar porque você é uma mulher. Nós não matamos mulheres. Mas você tem que se converter ao Islã, ler o Corão e se cobrir”¹. Testemunhas do atentado afirmam que eles gritavam: “Alá é Grande” e “Vamos vingar o profeta Maom锹.
     Um dia após o ataque, um terceiro homem, ligado a mesma célula terrorista dos dois que invadiram a redação, continuou a impor medo à capital francesa, matando uma policial. No terceiro e último dia de terror, ele invadiu um mercado judeu, fazendo vários civis de reféns. Ao mesmo tempo, os dois terroristas do Charlie Hebdo foram encurralados e mortos pela polícia francesa em uma gráfica próxima de Paris. Antes do terrorista do mercado judeu ser também morto, quatro reféns tiveram suas vidas ceifadas. Assim, o resultado desastroso desses dias obscuros na vida dos franceses foram dezessete vítimas fatais, mais os três terroristas, totalizando vinte mortes.
    
Marcha pela Liberdade na Place de la République
 Em onze de janeiro de 2015, estima-se que, pelo menos, mais de um milhão de pessoas mobilizaram-se na Place de la République, em Paris, para protestar, pacificamente, contra a onda de horror e medo que assolou a capital francesa e a favor da liberdade de expressão. Vários chefes de estado e governo, inclusive o presidente francês, estiveram presentes.
Ela foi chamada de "Marcha pela Liberdade". Num sentimento de união e solidariedade, a imensa maioria presente pronunciou individual e coletivamente: “Je suis Charlie”, traduzindo para o português: “Eu sou Charlie”, além de milhares de cartazes espalhados com essa mesma inscrição. Em outras cidades do mundo também ocorreram manifestações do mesmo gênero, como em Berlim (Alemanha), Londres (Inglaterra), Sydney (Austrália), Tóquio (Japão), New York (EUA) e Rio de Janeiro (Brasil).
Manifestantes na Marcha pela Liberdade
     Precisamos entender os motivos que levaram os três terroristas a cometerem esses atos que transgridem as leis divinas e quais são as contribuições que o Espiritismo pode oferecer para desembaraçar esses temas, que juntos, podem ser explosivos: liberdade de expressão, religião e fanatismo.        

    Podemos inferir que o início desta tragédia começou em 2006, quando o Charlie Hebdo republicou as charges sobre o profeta Maomé de um jornal dinamarquês, desencadeando a fúria dos fundamentalistas em todo mundo. Grupos islâmicos franceses entraram com um processo, mas perderam na justiça. A redação do Charlie sofreu um atentado a bomba em 2011, após ter publicado um desenho do profeta Maomé dizendo: “Cem chibatadas se você não morrer de rir”. Felizmente, não houve vítimas, mas a redação foi incendiada. Apesar deste atentado, o Charlie Hebdo continuou publicando suas charges satirizando o profeta Maomé e seus seguidores fundamentalistas.   
    O editor e cartunista do Charlie, Stéphane
Stéphane Charbonnier, editor e cartunista morto
Charbonnier, conhecido como Charb, era protegido por escolta policial, pois seu rosto foi estampado num cartaz divulgado pela internet, juntamente com o nome de dez pessoas, e em seu cabeçalho dizia: “PROCURADOS VIVOS OU MORTOS POR CRIMES CONTRA O ISLÃ.” e continuava: “SIM NÓS PODEMOS – Uma bala por dia mantém os infiéis longe”¹. Charb e o policial que o protegia foram mortos no atentado de sete de janeiro.
      O jornal satírico Charlie Hebdo tem um estilo de crítica social ácida e ao mesmo tempo bem-humorada a vários segmentos da sociedade, como política, religião, mercado etc.. Para os cartunistas do Charlie, ninguém é intocável ao ponto de não poder ser desenhado: o atual e ex-presidentes franceses, Hollande e Sarkozy respectivamente, os Papas Bento XVI e Francisco, além de Jesus Cristo e o profeta Maomé já foram alvos de suas charges. O que eles defendiam era a liberdade de expressão irrestrita.
     Ao ver as charges do Charlie Hebdo com os olhos de um ocidental, eu concluí inicialmente que o problema era a crítica debochada e ofensiva de que se utilizavam para desenhar. No entanto, as explicações da motivação deste atentado foram surpreendentes para mim: a ofensa está na retratação da imagem do profeta Maomé, esta é a questão. Foram essas as razões que me levaram a não publicar no blog as charges com a imagem do profeta em respeito aos fiéis muçulmanos. No entanto, aqueles que desejarem vê-las, basta acessar a reportagem do G1 sobre as charges ou o facebook do Charlie Hebdo.
    Gostaria de fazer uma breve análise sobre o islamismo, referenciando estudiosos no assunto para compreendermos um pouco desta questão. Veja o que diz Lídice Ribeiro, que é teóloga e coordenadora do Centro de Teologia da Universidade de Mackenzie, em São Paulo: “O Corão não diz nada sobre proibição a representações de Maomé. Existem algumas imagens antigas dele que são aceitas pelos muçulmanos.”¹. Sumariamente, o Corão é a palavra de Alá (Deus) revelada ao profeta Maomé, constituído em forma de código de leis que deve reger a vida de seus seguidores. Para os muçulmanos, Maomé, que viveu entre os séculos VI e VII d.C., é o último profeta que veio pregar a mesma mensagem de Moisés e Jesus que foi distorcida pelo cristianismo. Portanto, o Corão é o livro que deu origem a religião islâmica ou muçulmana.
     Veja agora o que diz a historiadora americana Kecia Ali, da Universidade de Boston: “Há vinte ou trinta anos, nenhum muçulmano via a retratação da imagem de Maomé como uma questão de vida ou morte.”¹. As afirmações destas pesquisadoras mostram a distorção que a religião muçulmana sofreu pelos seus fundamentalistas, ao longo da história.
      Veremos abaixo um trecho de uma reportagem concedida pelo cientista político Hamed Abdel-Samad à revista VEJA. Hoje ele vive na Alemanha e está sob proteção policial deste país pois já recebeu várias ameaças de morte.
      Veja o que ele pensa a respeito das religiões:
     “Todas as religiões podem ser como drogas. Até o budismo. Tudo depende da quantidade em que são consumidas. O limite é ultrapassado quando alguém ou um grupo insiste que as regras de convivência ditadas pela sua religião devem reger todas as situações da vida. O cristianismo enfrentou esse problema na Idade Média, durante a Inquisição. Atualmente, pelo menos na Europa, tanto o judaísmo quanto o cristianismo aceitam uma função diferente na sociedade. Os católicos reconhecem o papa não como um chefe político, mas um líder espiritual. Do Vaticano, ele não determina as políticas mundiais como um chefe de Estado.”¹
      Segue abaixo a sua análise sobre o islamismo:
     “No Islã muita gente acredita que o Corão é a palavra de Deus, enviada diretamente do céu para os seres humanos. O texto divide o mundo entre bons e maus, fiéis e infiéis, e determina que o islamismo deve prevalecer sobre todas as religiões, o que significa controlar o mundo. Se as mensagens são interpretadas à luz do que se sabe hoje, então pode haver uma mensagem que ajude as pessoas a conviver. Do contrário, quando o Corão é aplicado sem nenhuma relativização, o resultado é sempre um regime facista...”
      Apesar das críticas às religiões relatadas acima, em especial ao islamismo, devemos deixar claro que as raízes desta questão não estão nas religiões em si, mas no mau uso que os homens fazem delas, com fins de satisfazer às suas paixões e interesses: o orgulho, egoísmo, ódio, tirania e soberba. Ao contrário, as religiões devem combater as suas más inclinações, e não potencializá-las.      
      No islamismo existem pessoas moderadas que compreendem o ato bárbaro cometido pelos terroristas em Paris e sabem perfeitamente que este não é o caminho para conseguir o que se deseja: “O atentado foi uma declaração fragorosa de guerra... Estamos horrorizados com a brutalidade e a selvageria.”¹. A afirmação é de Dalil Boubaker, Imã da Grande Mesquita de Paris. Os líderes religiosos muçulmanos, assim como fez o Imã acima, devem se pronunciar a respeito, condenando os ataques terroristas para mostrar ao mundo que o problema não está no islamismo.
     Compreendendo a gravidade da situação, o Papa Francisco também fez declarações sobre o atentado, das quais destacamos:
     
Declarações do Papa sobre os atentados em Paris
O Pontífice criticou a "cultura da rejeição ao outro, que gera violência e morte e que converte o ser humano em escravo, seja da moda, do poder, do dinheiro, inclusive às vezes de formas deturpadas de religião"
10. E continua: "… o fundamentalismo religioso, antes mesmo de descartar seres humanos perpetrando horrendos massacres, rejeita Deus, relegando-o a um mero pretexto ideológico"10.
      Sobre o confronto entre liberdade de expressão e religião, o líder religioso afirma:
Declarações do Papa sobre os atentados em Paris
    “Não se pode ofender, ou fazer guerra, ou assassinar em nome da própria religião ou em nome de Deus.11 e também: “Ambos são direitos humanos fundamentais: tanto a liberdade religiosa, como a liberdade de expressão.11   
      Amigos leitores, termino a primeira parte deste artigo. Tomei a decisão de dividi-lo por dois motivos: primeiro para não ficar demasiadamente grande, tornando a leitura desinteressante e cansativa, e segundo, para que o leitor tenha tempo para meditar sobre os temas abordados e condições de formar uma opinião sobre o caso.    
     Como sempre, estejam à vontade para postar seus comentários. Brevemente, daremos continuidade com os esclarecimentos dos Espíritos.
   Por João Viegas   
      
Referências bibliográficas:

1. Revista Veja, edição 2408 – ano 48 – nº 2, de 14 de janeiro de 2015. Editora abril.
2. Revista Isto é, edição 2354 – ano 38 –  de 14 de janeiro de 2015. Editora Três
3. Revista Época, edição 866 –  de 12 de janeiro de 2015. Editora Globo.
4. http://super.abril.com.br/cotidiano/corao-ou-alcorao-445937.shtml
5. http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/saiba-quem-sao-os-mortos-nos-tres-dias-de-ataques-na-franca.html
6. http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/alem-de-maome-jesus-o-papa-e-politicos-foram-capa-do-semanal.html
7. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/01/imagem-mostra-terroristas-se-abracando-para-comemorar-atentado.html
8. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/01/saiba-como-comecou-intolerancia-de-radicais-islamicos-charges.html


9. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/01/quase-quatro-milhoes-de-pessoas-vao-ruas-na-franca.html


10. http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/papa-condena-formas-deturpadas-de-religiao-apos-atentados-de-paris.html
11. http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/liberdade-de-expressao-nao-da-o-direito-de-insultar-o-proximo-diz-papa.html  
12. http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/tiroteio-deixa-vitimas-em-paris.html


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