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| Pintura "Operários" de Tarsila do Amaral |
A diversidade dos Espíritos é um dos princípios elementares da Doutrina Espírita, pois é resultado das observações dos fatos, por meio dos fenômenos mediúnicos. Este princípio traz consequências diretas à ciência espírita, pois Kardec teve que se munir de critérios e métodos para dividir e classificar os Espíritos, e consequentemente as suas comunicações. Observem abaixo o que ele escreve a esse respeito:
“Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.”1
Kardec nos deixou vasto material de comunicações espíritas, na segunda parte do livro “O Céu e o Inferno”, onde Espíritos das mais variadas condições nos deram a oportunidade de nos esclarecer acerca da sua situação após a morte corporal. São espíritos felizes, em condições medianas, sofredores, suicidas, criminosos arrependidos, endurecidos e que passaram por expiações terrestres. Eles nos evidenciam que ninguém se torna anjo, demônio, doutor ou filósofo após a passagem para o plano espiritual. Que muitos ainda permanecem na ignorância sobre as verdades espirituais, pois nem desconfiam que já não pertencem mais ao plano físico. Outros, contudo, já tem uma posição mais justa das coisas, pois compreendem a sua situação e que devem seguir seu caminho após o retorno ao mundo espiritual.
Sendo o Espiritismo uma ciência2, segue que seu objeto de estudo são os espíritos, assim como os seres vivos são os objetos de estudo da Biologia. A taxonomia é o ramo da Biologia que trata da nomenclatura e classificação dos seres vivos, que são estudados de acordo com os seus caracteres morfológicos e fisiológicos. De forma didática, são divididos em espécies, gêneros, famílias, ordens, classes, filos, e por fim reinos. Tomemos como exemplo o cão conforme esquema abaixo:
Espécie: Canis familiaris → Gênero: Canis → Família: Canidae → Ordem: Carnívora → Classe: Mammalia → Subfilo: Vertebrata → Filo: chordata → Reino: Animalia.3
De maneira análoga a taxonomia dos seres vivos, os Espíritos foram classificados por Kardec e pelos próprios Espíritos de acordo com seu grau de adiantamento moral e intelectual. Os critérios usados tomaram por base suas virtudes, imperfeições, conhecimento e sabedoria adquiridas. Segue abaixo a classificação dos Espíritos conforme resposta à pergunta de nº 97 de “O Livro dos Espíritos”:
“Na primeira (ordem), colocar-se-ão os que atingiram a perfeição máxima: os puros Espíritos. Formam a segunda os que chegaram ao meio da escala: o desejo do bem é o que neles predomina. Pertencerão à terceira os que ainda se acham na parte inferior da escala: os Espíritos imperfeitos. A ignorância, o desejo do mal e todas as paixões más que lhes retardam o progresso, eis o que os caracteriza.”4
É fruto também da observação que para mesma ordem existem espíritos com as mais variadas aptidões, adiantamento moral e intelectual distintos, sendo necessário que Kardec subdividisse-as em classes. Esse estudo encontra-se nos itens de nº 100 a 113 de “O Livro dos Espíritos”. Entretanto, ele esclarece que esta subdivisão em classes não tem nada de absoluto, pois as linhas que delimitam suas fronteiras são muito tênues. Ela é apenas uma convenção para nos ajudar a entender melhor os Espíritos.
De maneira diversa dos seres vivos, os Espíritos não estão eternamente condenados à mesma ordem ou classe. Que através do bom uso de seu livre-arbítrio eles podem progredir, permutando de classes até alcançar a primeira, de Espíritos puros, que é a sua meta final.
A conclusão de Kardec que a opinião dos Espíritos tem o valor de uma opinião pessoal é fundamental para compreender muitos pontos da Doutrina espírita, pois se um dos seus propósitos é revelar aos homens as verdades espirituais, como obtê-las diante de um cenário tão insólito? Esta questão, que não possui uma resposta curta, voltará a ser tema de artigos futuros deste blog.
O material utilizado para análise das classificações dos Espíritos são as comunicações espíritas que se dão através da mediunidade, por meio da fala e da escrita principalmente. Devem ser avaliados tanto o conteúdo quanto o uso da linguagem nas mensagens, que são os indicadores mais seguros, pois eles revelam as características dos Espíritos. Portanto, este trabalho faz parte do processo de elaboração da ciência espírita, que deve ser realizado pelos espíritas, legado deixado por Kardec.
Por João Viegas
Referências bibliográficas
1. KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. especial Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005, A minha primeira iniciação no Espiritismo, segunda parte.
2. Ver artigo “O Que é o Espiritismo?”
3. LOPES, Sônia. Bio: volume único. 1ª ed. São Paulo, 2004. Editora Saraiva. Cap. 18, Introdução ao estudo dos seres vivos.
4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Diferentes Ordens de Espíritos, cap. I (Dos Espíritos), da Parte Segunda (Do Mundo espírita ou mundo dos espíritos)
5. KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. 41ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999, Diversidade dos Espíritos, capítulo 1.
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