Teoria ou paradigma: O Livro dos Médiuns
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| Frontispício de "O Livro dos Médiuns" |
“(O Espiritismo) não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não apresentou como hipóteses a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos, quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios. Não foram os fatos que vieram a posteriori confirmar a teoria: a teoria é que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas.”2
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| Francis Bacon, filósofo inglês do séc. XVII |
No entanto, o conceito de produção de teorias pelo método indutivo e/ou dedutivo foi se tornando cada vez menos usual pelos cientistas. O princípio aceito atualmente é a produção inicial de teorias ou paradigmas que consigam explicar satisfatoriamente um conjunto de fenômenos observados, tendo o experimento um papel secundário3. Porém, a mudança na maneira de se fazer ciência com o progresso da epistemologia não tira o mérito do conhecimento produzido até então. Seria legítimo desqualificar a teoria da seleção natural, proposta por Darwin4, só porque seus resultados foram baseados em observações da natureza? O que dizer
das descobertas extraordinárias de Faraday5, empirista por excelência? O princípio de funcionamento das máquinas elétricas, presente desde a geração de energia até o consumidor final, foi descoberto por ele por meio de seus experimentos. Devemos, portanto, ficar às escuras até a ciência demonstrar esses princípios através de métodos epistemológicos contemporâneos? Por fim, vamos deixar de usar antibióticos só porque a penicilina foi descoberta ao acaso durante uma experiência de Fleming6? É fácil ver que desconsiderar essas descobertas seria uma postura descabida dos cientistas de hoje. Conclui-se, portanto, que assim como a ciência progrediu na forma de produzir conhecimento, cabe aos adeptos do Espiritismo do séc. XXI procurar adequar a ciência espírita a essas novas exigências.
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| Michael Faraday, cientista do séc XIX |
O mérito da Doutrina de que fala Kardec está no fato de que havia um sentimento extremamente cético perante os fenômenos, pois os homens daquela época (e até hoje) procuravam explicá-los dentro das propriedades e leis da matéria, descartando qualquer possibilidade de intervenção dos Espíritos. O próprio Kardec teve uma postura cética quando começou a observá-los, pois afirmou em “O que é o Espiritismo?” que levou mais de um ano para se convencer da teoria espírita, demostrando uma postura cautelosa perante os fenômenos. Em contrapartida, muitos de sua época queriam se convencer, ou confirmar suas posições céticas, assistindo a uma única sessão espírita. Kardec sabia que o resultado desta postura imediatista seria desastroso, pois os fenômenos espíritas carecem de controle por parte dos homens.
Contrariando a esse ceticismo, os Espíritos não paravam de se comunicar, dando provas patentes de sua existência. Por fim, para se tornar adepto do Espiritismo, ou seja, para compreender e se convencer da teoria espírita, faz-se necessário “imprimir a seus estudos a continuidade, a regularidade e o recolhimento indispensáveis”7, como qualquer outra ciência exige de seus estudantes. Nas palavras de Kardec: “Quem quiser com eles (os Espíritos) instruir-se tem que com eles fazer um curso”.7
No entanto, do ponto de vista da ciência contemporânea, não há diferença de onde provém a teoria que explica o fenômeno, desde que ela seja abrangente, satisfatória e coerente. Esses são os elementos encontrados nas palavras dos Espíritos. Kardec, por sua vez, realça esses elementos em seus comentários.
Por João Viegas
Referências
1) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 64ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Frontispício.
2) KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 38ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, ítem 14.
3) Xavier, Ademir. Jornal de Estudos Espíritas Vol. I 2013, seção 2: Artigos Regulares “Reflexões Sobre a Ciência Espírita”.
4) LOPES, Sônia. Bio: volume único. 1ª ed. São Paulo, 2004. Editora Saraiva. Ítem 4 - A Teoria da seleção natural, Cap. 36, Evolução - Teorias e evidências.
5) KOSOW, Irving L. Máquinas Elétricas e Transformadores. 10ª ed. São Paulo, 1989. Editora Globo. Capítulo 1.
7) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 74ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, Introdução. Item VIII.
8) CHALMERS, A. F.. O Que é a Ciência Afinal? Tradução de Raul Filker. 1993: Editora Brasiliense, Introdução.



A ciência espírita vem esclarecer, através de seus métodos de observação, que alguns fenômenos que antes eram vistos como sobrenatural, não passam de fenômenos mal compreendidos, mas que podem ser explicados através de leis naturais.Antº Carlos
ResponderExcluirSaudações meu querido amigo Antônio Carlos! Está coberto de razão, pois este é um dos propósitos da ciência espírita. Corroborando com seu pensamento, acrescento que ela veio mostrar também que os médiuns, intermediários entre os vivos e "mortos", não sofrem de nenhuma patologia catalogada pela ciência, pois são pessoas normais como outras quaisquer, mas que prestam este relevante serviço a sociedade de demonstrar através da sua faculdade que a vida continua. Agradeço pela sua colaboração aqui no blog!
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